Primeiro vamos tirar a alcunha de “Mad Max brasileiro”. É injusto com qualquer produção nacional e com parte considerável da internacional. E uma ofensa à obra do George Miller.

Reza a Lenda conta a história da gangue de Ara (Cauã Reymond) na empreitada para roubar uma imagem de uma santa e colocá-la em um altar. Esse movimento é necessário, pois segundo um profeta o ato traria a chuva para aquela comunidade. Uma outra premissa da trama é levar Laura (Luisa Arraes), uma moça que foi sequestrada pela trupe de Ara, até o Galego Lorde (o tal bruxo) como oferenda em troca de uma melhor premonição. Contudo a imagem da santa pertencia a Tenório (Humberto Martins) e ele não vai deixar barato e está disposto a tudo para recuperá-la.

Se você não achar o mote da história convidativo acredite: infelizmente é a melhor coisa do filme. Já que a obra é cercada de vários problemas em outros aspectos, inclusive (ou principalmente) no jeito como ela foi contada.

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A primeira cena, por exemplo, serve para introduzir uma das personagens que irá fazer parte da trama de um forma central, a Laura. Contudo, a conversa que ela tem com a amiga soa amador. Pelo menos a cena de ação que se segue, mesmo não sendo uma maravilha, não deixa a primeira impressão ser um desastre total.

O longa é recheado de momentos que os personagens querem mostrar força. Tenório descreve um grotesco cozido para um padre, Ara se mostra frio diante de um enterro e Severina (Sophie Charlotte) intimida Laura. A maioria das tentativas soa forçada ou é uma opção superficial de roteiro para explicitar algum ponto – não o sendo feito de forma natural.

Outro problema são personagens sem função ou mal desenvolvidos. O Padre, os capangas e a situação mais grave: a Severina. Todos aparentavam ter algum arco, mas foram esquecidos. Severina, por exemplo, é uma personagem rasa que aparece o filme todo, que tem pouca ou nenhuma camada. Tudo nela é ruim: ver a Sophie montada com aquele figurino e maquiagem prometia algo de interessante, mas desenvolvimento e o desfecho decepcionam por completo – apesar da boa atuação da atriz.

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As cenas de ação seguem as falhas, citadas anteriormente, do desenvolvimento dos personagens. Tiros que são acertados ou errados de forma conveniente (algo comum em filme do gênero, diga-se de passagem), muitas questões inverossímeis e falta de um melhor acabamento. Elas não empolgam, não te prendem na cadeira e muito menos serão marcantes.

O ritmo do longa não é de todo ruim. Percebemos algumas barrigas é verdade, mas a montagem das cenas, no geral, foi ok. Mais para o final há um diálogo sobre fé, entre Ara e Galego Lorde, que é realmente muito bom.

Sobre as atuações, o Cauã Reymond faz um trabalho digno ao traspor as emoções necessárias que o papel pede e o personagem dele é o mais complexo – vai de fiel fervoroso a matador frio (ambos de modo simultâneo), mas em outras vezes ele se acomoda de modo quase displicente (também dificultado pelo material que tem em mãos). Os demais são funcionais, expressando uma única ideia ou, quando solicitados, não dando conta de ir além (como o caso de Laura Arraes).

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A fotografia e a trilha são pontos positivos. Ambos ajudam a construir uma história muito melhor que a própria narrativa. São explorados alguns planos abertos mostrando as belezas do sertão e temos uma música pesada, indo na contramão dos ritmos nordestinos – ponto positivo aqui pela opção não clichê. Todavia há uma passagem de tempo ao final do primeiro arco que é muito bonita, mas mal executada – novamente dando um ar de amadorismo. Até as coisas que aqui funcionam de certo modo são passíveis de crítica.

Reza a Lenda tem um algum mérito na proposta do filme. Mostrar esses tipos do sertão saindo um pouco do convencional e mesclá-lo com o uso da fé, mas – muito devido à execução do roteiro e à direção de Homero Olivetto – temos apenas uma tentativa que sequer arranha com algo que valha o ingresso. Nota 4 de 10