Lutador no auge, tragédia, lutador no fundo do poço, treino, volta por cima, lutador no auge. Definitivamente, Southpaw não é um filme original – todos os principais clichês dos filmes de luta estão presentes, porém, de tão bem feito, merece ser assistido.

A primeira parte do filme serve para nos ambientar à trama: somos apresentados a um lutador chamado Billy “The Great” Hope interpretado pelo Jake Gyllenhaal, que além da mansão, carros e fama, é bem sucedido por ter uma família (esposa interpretada pela Rachel McAdams e a filha é interpretada pela grata surpresa – Oona Lawrence) que o apoia e ajuda a encontrar forças para se manter no topo.

Já no segundo ato, somos expostos à um acontecimento trágico que bruscamente transforma de maneira negativa a vida do personagem principal. A partir daí, são vários fatores que culminam para levar o lutador à beira do suicídio. O luto do personagem se faz de maneira fidedigna – inicialmente pela negação e raiva, seguidas pela depressão, e só então, ao chegar no estágio de aceitação é que a história começa a se desenrolar para um terceiro momento. É aqui onde mais fica evidenciado a imersão do ator no papel: entre fúria e revolta ou apatia e depressão (quando o personagem fica tão deprimido e mal consegue falar, os olhares e expressões corporais falam por si), o Jake Gyllenhaal mostra mais uma vez que é um dos melhores atores da sua geração.

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O terceiro ato do filme é o que apresenta mais clichês por metro quadrado: do agente que só pensa em dinheiro – interpretado pelo 50 Cent ao treinador ranzinza (mas de bom coração, claro…) que possui métodos menos convencionais de treino – interpretado pelo Forest Whitaker, tudo já foi visto antes, não há novidade. Digamos que nesse momento, o filme se assemelha a uma espécie de versão melhorada e não-adolescente do filme Never Back Down (Quebrando Regras, 2008) – a diferença está principalmente nas atuações de gente grande (Jake Gyllenhaal é o cara) e na carga dramática infinitamente maior (é difícil não chorar).

A direção é feita por Antoine Fuqua (diretor do ótimo “Dia de treinamento”) e é competente em deixar o espectador “na pele” do personagem principal – cria-se um vínculo forte, e essa empatia pelo Billy Hope que faz o filme ser convincente apesar de toda previsibilidade. As sequências de boxe são realizadas com maestria – seja quando simulam uma transmissão televisiva ou mesmo quando realizada em perspectiva de primeira pessoa (como se estivéssemos lutando junto com ele – e de certa forma, estamos mesmo). A edição funciona, o filme se faz dinâmico quando necessário. Outro ponto positivo é a trilha sonora: composta pelo consagrado James Horner (inclusive sendo seu último trabalho, já que faleceu dias antes da estreia mundial do filme, 20 de julho de 2015) que reforça o clima denso das partes mais delicadas. Além disso, o rapper Eminem (que chegou a ser cogitado para personagem principal) assina a produção executiva da trilha sonora e ainda emplaca um single – Phenomenal, que casa perfeitamente com as cenas de treino e com a busca de força para a volta por cima do lutador.
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Não há como negar que a linearidade e previsibilidade do filme incomoda, porém, os clichês existem por um motivo: eles funcionam. Na verdade, nem sempre funcionam, mas quando realizados de maneira competente, as chances de dar errado são mínimas. O filme peca em não arriscar um pouco mais quando pode, e opta por não explorar subtramas que poderiam ser interessantes (como a do garoto que treina junto com o personagem principal). O feijão com arroz do filme deu certo, porém, não há como um feijão com arroz ser grandioso – dá pra ser comido, dá pra matar a fome, dá até para se emocionar (com o filme, não com o prato… tudo bem, talvez com o prato também) mas, é preciso arriscar mais se almeja uma refeição daquelas…

Nota: 7.5