Boi Neon é um bom suspiro no cinema nacional . Em época de Os Dez Mandamentos e Reza a Lenda, ambos com muito marketing – principalmente o primeiro – mas de qualidades duvidosas.

Estilista, mecânico, cozinheiro, dançarino erótico, motorista de caminhão, vigilante noturno. Vocês diriam que essas profissões são de homens ou mulheres? Aqui não temos essa distinção de gênero o que sai do clichê de rotular de forma simplória. E esse é o grande mérito da trama.

O protagonista Iremar (Juliano Cazarré), por exemplo, cuida dos bois em um trabalho sujo e braçal, mas sonha com traçados estilizados para roupas femininas (o que é ironizado pelos colegas de profissão). A Galega (Maeve Jinkings) faz danças eróticas fantasiada com cabeças de cavalos. Ela também dirige uma carreta e quando dá problema, lá vai a galera consertar… ou seja, podemos esperar tudo de todos os personagens.

boi neon cazarre

Temos a história de um grupo que cuida da parte de organização e transporte de bois para vaquejadas. Vemos o dia a dia desses trabalhadores, priorizando os bastidores das tarefas. Tanto que o evento principal aparece, mas claramente não sendo o foco aqui, sendo apenas consequência do que foi preparado anteriormente. O olhar está voltado para a relação entre aqueles personagens – e isso é feito muito bem – e sonhos daqueles homens e mulheres.

Sonhos que muitas vezes parecem distantes como na vez que Iremar tenta mandar fazer cartões de qualidade com o logo que ele criou, mas as exigências tecnológicas e financeiras o impedem. Ele se restringindo à reciclagem de materiais e rabiscos na revista de mulher pelada do companheiro de viagem (essa cena aliás reverbera no tempo e da maneira correta na história). Ou ainda quando a filha da Galega, a pré-adolescente Cacá, demonstra interesse nos cavalos que não pode ter e o Iremar responde um lamentoso “quem sabe…” aludindo à própria situação.

A personagem da jovem Cacá, aliás, é a melhor coisa do filme: inocente, curiosa, desbocada e carinhosa. Sendo na maioria das vezes apenas criança mesmo. As diversas reações implicadas à personagem mostram um bom trabalho da promissora Alyne Santana, a cena que ela pede um abraço é uma das coisas mais singelas que vi recentemente.

Boi-Neon-Neon-Bull

O longa não tem vilões ou heróis. Sendo apenas um retrato expositivo daqueles tipos. E não há uma explicação muito clara de como aquele grupo se formou e nem do futuro deles. O que, em certa medida, pode ser considerado um mérito na abordagem do Gabriel Mascaro que dirige e assina a obra ao não mastigar demais. Todavia esse ponto para alguns pode, às vezes, beirar (e em outros extrapolar) a ausência de história, mas que na realidade é a realidade sendo mostrada (como em Boyhood ou Anomalisa, por exemplo).

De fato alguns caracteres ali presentes estão lá só para cumprir uma função específica, soando mais artificial do que natural, como no caso de um personagem tipicamente bronco e bonachão que é substituído por outro que é mais vaidoso que a grande característica é cuidar dos longos cabelos, em clara contraposição ao primeiro. Pode-se alegar que somos assim, não mudamos com frequência, mas para fins narrativos a construção às vezes é sutil demais e isso prejudica um pouco. E mesmo os personagens sendo complexos em si, falta um algo mais.

boi neon personagens

A linguagem mostra a diversidade do nosso país com algumas expressões deliciosas e que eu não saberia me expressar melhor para dizer o que eles queriam falar. Contudo algumas vezes o áudio não captava bem o que saia da boca principalmente da menina cacá e tive dificuldades em compreender o que ela dizia.

Vale o alerta: há a utilização de um linguajar chulo e muitas cenas com nudez explícita e sexo. Portanto, caso se importe com isso, cuidado ao levar a família. Mas essas cenas são belissimamente filmadas, mostrando um excelente trabalho na fotografia do Diego Garcia. O contraste de uma relação que tende ao carnal com outra que é sublimemente poética é só um dos pontos fortes neste aspecto.

boi neon fotografia

No todo nos é apresentado um micro-cosmos bem peculiar que pode ser familiar para alguns, mas para muitos não é tão comum, mais um ponto a favor para o Gabriel Mascaro ao refletir na telona  uma obra, a cima de tudo, humana. Estreou no dia 14 de janeiro em poucas salas, filme tem muito mais méritos que defeitos, sendo premiado em diversos festivais, inclusive internacionais. Vale muito ser visto. Nota 7