Repórter: “Suas músicas embelezam a vida das gangues, armas e drogas”.

Ice Cube: “A nossa arte é um reflexo da nossa realidade. O que você vê quando sai da porta de casa? Eu sei o que vejo, e não é bonito”.

Straight Outta Compton, lançado no Brasil dia 28 de Outubro de 2015, conta a história do N.W.A (Niggaz Wit Attitudes), formado em 1986 por Eazy-E, Dr. Dre, Ice Cube, DJ Yella e MC Ren na cidade de Compton (Condado de Los Angeles, Califórnia). Produzido pelos próprios Dr. Dre, Ice Cube e Tomica Woods-Wright (viúva de Eazy-E), o filme é uma biografia que descaradamente dá preferência ao trio – deixando de lado os outros dois componentes que não fizeram parte da produção. A disputa de egos entre os integrantes (também abordada no enredo da trama) parece ainda se fazer presente.

Dirigido por F. Gary Gray, a difícil missão de condensar cerca de uma década da vida do grupo se faz de maneira convincente (embora em determinados momentos seja um pouco corrido demais); a edição e o roteiro (inclusive indicado ao Oscar de melhor roteiro original) funcionam em conjunto e conseguem fazer um filme de ritmo bom. Num primeiro momento, podemos achar que os atores principais foram escolhidos exclusivamente pela aparência (eles são absurdamente parecidos com os rappers), porém, todos atuam muito bem e passam muita credibilidade ao filme. O elenco principal conta com Jason Mitchell (Eazy-E), Corey Hawkings (Dr. Dre) e O’Shea Jackson Jr, filho do próprio Ice Cube. Há ainda Paul Giamatti no papel do empresário Jerry Heller, entre outros que só contribuem positivamente para o elenco. A trilha sonora dispensa comentários: sempre condizente com o momento da história sendo contada, sempre soando como mais que apenas músicas soltas, soando mais como um manifesto. Destaque ainda para as ótimas cenas dos shows contendo músicas que, após a constatação de tudo que os integrantes passavam, faziam todo o sentido e de certa forma, mesmo que de maneira torta, se justificavam, como a clássica “Fuck tha Police”. O acervo musical é realmente espetacular, o filme é um prato cheio para os fãs do N.W.A e para os fãs de hip-hop em geral.

O filme não é somente sobre a formação do grupo, ainda bem. É também sobre a cidade de Compton e todo o contexto social e cultural nela envolvida. Ao abordar tais aspectos como pobreza, tráfico de drogas, racismo, abuso de autoridade e brutalidade policial, o longa é excelente. É notável a preocupação em relatar as principais mazelas da condição em que os integrantes viviam antes da fama, e os percalços que viveram mesmo após consagrados como grandes rappers. Ocorrido em Março de 1991, o caso do taxista negro (inicialmente detido por excesso de velocidade), Rodney King, brutalmente espancado pela polícia de Los Angeles, é lembrado de maneira sábia: num momento em que os integrantes já não estão mais trabalhando juntos e com todas suas divergências e conflitos, acompanham “juntos” ao caso e à absolvição dos 4 policiais envolvidos. Nesse momento, cada um pertencia a uma gravadora diferente, alfinetavam-se em letras de música, mas, a notícia na TV os faz lembrar que existe algo maior que sempre irá uni-los: a cor da pele.

Straight Outta Compton

É preciso reconhecer o seguinte: filmes só mostram o que querem mostrar. Pior quando quem é retratado é o mesmo que banca o filme. Dessa forma, não é difícil prever que os personagens principais são romantizados mais do que provavelmente o são na vida real. Além disso, ao procurar um pouco mais sobre os integrantes do N.W.A, deparei-me com alguns acontecimentos, no mínimo, lamentáveis sobre os mesmos, mas que em momento algum são citados no filme, como por exemplo o histórico de violência do Dr. Dre contra as mulheres (que por sinal apresentam papel quase nulo no filme, com exceção, é claro, da viúva do Easy-E, produtora do filme…). Essa constatação chega a prejudicar o filme como um todo? Racionalmente, não acho justo punir o filme por omissões como essas, mas, no quesito emocional, o filme me vem de um jeito mais manipulador, e com certeza perde um pouco a beleza.

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Antes de terminar, vale uma reflexão: cerca de duas décadas separam os acontecimentos relatados do filme da conjuntura da sociedade atual, mas porque tais realidades não parecem tão distantes? Mortos em 2014, Michael Brown (jovem negro alvejado por policial no estado de Missouri; não portava armas nem tinha antecedentes criminais) e Eric Garner (negro, mais conhecido pela frase “I can’t breathe”, que morreu de parada cardíaca pouco depois de ser “rendido” e algemado por policiais, sob acusação de vender cigarros livres de impostos em Nova Iorque) nos fazem perceber que pouco (ou nada) mudou de lá pra cá. Vamos além. O filme se encarrega de denunciar o preconceito e a marginalização dos negros e pobres nas periferias estadunidenses no fim da década de 80 e início da década de 90. Mas porque é tão fácil, para o brasileiro, identificar e assimilar essa marginalização ocorrida há tanto tempo e mesmo com tantos quilômetros de distância? O que o filme relata é extremamente relevante pois é indubitavelmente atual. E o Brasil não fica atrás na desigualdade social nem na violência policial não, parece que copiamos direitinho… Nem é preciso dizer quem são as maiores vítimas. O que acontece é que é um assunto muito mais complexo do que uma simples crítica de filme pode abranger, mas o debate que o filme nos leva é muito válido, e sempre será. A solução? Parece distante ainda, mas, por hora, ouvir o que os novos artistas de nossas periferias tem para dizer e tentar entender a conjuntura social e cultural como um todo, parece mais inteligente do que confrontá-los, reprimi-los e virar-lhes as costas para o que refletem de suas realidades constantemente em suas canções, como fizeram com o N.W.A.

Nota: 8.5