Escolha uma Página

A Garota Dinamarquesa se passa na Europa do começo do século passado (anos 20 e 30) e conta a história de Einar Wegener um pintor dinamarquês que é casado com Gerda Wegener, que também é pintora. Apesar de compartilharem a profissão ele foca mais em paisagens e ela em figuras humanas. Einar, para ajudar a esposa, acaba servindo de modelo para Gerda em uma imagem que era necessário o uso de um vestido. O ocorrido serve como gatilho para Einar ir assumindo a verdadeira persona com a qual ele nasceu, a feminina.

eddie vestido

O primeiro ato é o mais fraco do filme. A apresentação dos personagens é um pouco falha e os próprios atores parecem desconfortáveis com alguns diálogos. Há, por exemplo, uma falta de sutileza na cena que Einar segura o vestido.

Mas, ao mesmo tempo, o arco inicial serve bem para estabelecer algumas coisas importantes: Gerda é independente e “pra frente” em relação à época (ela não se importa em mostrar os tornozelos e se diverte incentivando o marido na brincadeira dele se vestir como mulher, além de deixar claro que não quer que ele interfira no trabalho dela). Ja Einar aparenta ser amoroso com a mulher (e ela com ele), é tímido, deseja ter filhos e é talentoso no que faz.

No segundo terço do longa, o ápice da trama, vemos Einar se revelando como Lili (aparentemente criada pelo casal e que serve de inspiração para Gerda pintar, mas que já estava no âmago de Einar desde sempre). Neste momento do longa praticamente tudo ali funciona muito bem. Os conflitos internos e externos do personagem afloram de um jeito impressionante. Acusado de ter um desequilíbrio químico e ser desatinado pelos médicos, que propõem uma “cura” para a “doença”, ele ainda tem que entender o que se passa dentro de si na mescla da transição entre Einar/Lili. Já Gerda tem que lidar com a situação e o faz de um jeito muito interessante (não sendo totalmente óbvia e nem artificial). Além do casal principal, há personagens secundários que dão um tempero a mais e ajudam bem a narrativa.

the-danish-girl-eddie-redmayne (1)

Vale destacar as atuações de Eddie Redmayne e Alicia Vikander, ambos indicados ao Oscar.Ela começa em um tom mais descontraído e bem jovial. Aos poucos vai incorporando um ar mais tenso com a situação, conforme a personagem vai pedindo e a carga dramática é bem pontuada por Vikander. Há alternâncias de sentimentos muito bem explorados pela atriz: aceitar ou não o que se passa com o marido, continuar amando ou desistir de tudo, um ciúmes dúbio. E isso tudo sem esquecer da própria profissão e dos anseios dela como mulher.

Se Alicia está ótima, Eddie – que venceu o Oscar ano passado – também dá um show. A transformação física e mental vai muito além de mera maquiagem e figurino. Toda a composição é muito boa: desde trejeitos sutis até a voz vão se modulando com o passar do tempo. Há uma cena envolvendo um espelho que é um primor: delicadeza e frustração se entrelaçam de uma forma muito bela. A interpretação dele, sem dúvidas, é a melhor coisa do filme. Só deve perder o Oscar, pois o Leonardo DiCaprio foi assombroso no filme O Regresso (mas arrisco a dizer que o bicampeonato, se de fato não sair, foi por pouco).

Alguns outros momentos, quase que poéticos, merecem ser citados: é sintomático que o único momento que Gerda apareça nua é o que Einar se desnuda para ela como Lili pela primeira vez. Em outro instante, logo após uma bela cena com Lili, há um corte para um rua onde vemos a câmera pegar claramente um ponto de fuga (abrindo margem para interpretações sobre perspectiva e observação da profundidade do outro). A ironia de que Gerda queria afastar o marido do próprio trabalho, mas que ele se torna fundamental para a arte dela (com a consequência da transformação do companheiro) é focal na trama. Ele só pintar paisagens pode nos remeter a uma dificuldade  em fixar uma identidade, um rosto, enquanto Gerda consegue extrair na pintura uma beleza de Lili mais pulsante que a real.

a garota dinamarquesa pintura

Encerro as pinçadas do trechos do filme com duas frases de Einar onde ele diz: “que não queria interpretar a si mesmo” [se referindo aos eventos de arte que ele relutava em participar, mas algo que reverbera em vários sentidos] e “não importa o que eu vista, os meus sonhos são sonhos da Lili”, mostrando que a identificação dele com a mente feminina é muito mais complexa que usar um salto.

A parte final da trama ainda carrega benefícios do bom desenvolvimento anterior, mas tende a voltar para o começo irregular e caí no melodrama em alguns instantes. Poderia ter entregue mais no roteiro (escapando de alguns clichês e indo mais profundo na história), mas o mesmo não pode ser dito quanto às espetaculares atuações. Os aspectos técnicos estão de bons para ótimos. O Diretor Tom Hooper, vencedor do Oscar por O Discurso do Rei, se mostra irregular (mas também tendendo a digno de elogios) A obra, baseada em fatos reais, portanto, tem mais méritos do que pontos falhos. Nota 7

Gostou da matéria? Apoie o Acabou de Acabar no Patreon!

Comments

comments