Muito se fala no desgaste dos filmes de super-heróis e que o gênero precisa se reinventar em meio a tantas adaptações. Só em 2016, serão 7 filmes baseados em HQs (ou 6, já que ainda não sabemos nada sobre o Gambit, que está previsto para outubro). O desafio dos produtores está em inovar e não apenas fazer um “filme de herói”, mas ter aquele algo a mais que os fãs pedem, por exemplo, The Dark Knight, de Christopher Nolan, pode ser encarado como um thriller policial e a parte heroica está em segundo plano, assim como Capitão América 2 que é um filme de espionagem. E o que dizer de Guardiões da Galáxia, que trouxe personagens desconhecidos do grande público, que logo se identificou com o grupo de anti-heróis e trouxe uma trilha sonora nostálgica?

Alguns lançamentos de 2016 estão prometendo trazer novidades, como Esquadrão Suicida mostrou em seus dois trailers e já entramos neste ano com um filme baseado nas histórias de um personagem pouco conhecido do grande público – assim como foi em Homem-Formiga e com uma abordagem diferente de tudo o que já foi visto: Deadpool chega aos cinemas após uma campanha de marketing intensa e com o anti-herói atingindo várias mídias de forma peculiar – até na nossa Comic Con Experience ele deixou uma mensagem para os fãs.

Deadpool foi criado por Rob Liefeld e Fabian Niciesa em 1991 e a ideia era transformá-lo em um vilão, mas com o sucesso e uma legião de fãs, ele foi ganhando um destaque maior e ganhando seu estilo próprio, que seriam suas características: o grande humor em suas histórias, as várias referências da cultura pop e a chamada quebra da quarta parede, na qual ele conversa diretamente com o leitor. E também ele ganhou o apelido de “mercenário tagarela”.

ryan-reynolds-deadpool-deadpool-movie-update-ryan-reynolds-talks-leaked-film-jpeg-137692

Nos cinemas, ele surgiu primeiramente no pavoroso X-Men Origens – Wolverine, de 2009, interpretado por Ryan Reynolds e o desastre foi tão grande que a Fox demorou a dar sinal verde para um filme próprio do anti-herói. Juntando isso com Lanterna Verde, que foi ainda pior, parecia que os fãs de quadrinhos não queriam mais saber de Ryan e a idéia de um filme solo do Deadpool estaria fadada ao fracasso. Felizmente, nada disso aconteceu e Deadpool é um grande filme, muito diferente dos exemplares do gênero e funciona, tanto como cinema quanto adaptação.

E o que torna o filme tão especial é uma série de fatores: a Fox não queria uma produção dessas sendo “para maiores”, mas quem conhece o personagem sabe que suas histórias contêm uma dose alta de violência, sexo e nudez e os produtores insistiram tanto para fazer um filme com esses elementos que o estúdio deu sinal verde para Deadpool. E todas as características peculiares do mercenário tagarela estão no filme: piadas a todo o momento, diversas referências pop e, claro, a quebra da quarta parede. E sem a preocupação de ser politicamente correto no humor, violência e insinuações de sexo que, veja bem, é mostrado praticamente sem pudor algum.

A história do sujeito que descobre que tem um câncer terminal busca vingança contra o homem que destruiu sua vida poderia gerar um roteiro dramático e sombrio, mas não foi o caso: o filme não economiza nas piadas e referências e quase ninguém é perdoado: Matrix, Curtindo a Vida Adoidado, Liam Neeson, 127 Horas, Sinead O’Connor e sobra até para a Fox com o universo dos X-Men, Wolverine e obviamente, há piadas com os antigos fracassos de Ryan Reynolds: ‘X-Men Origens – Wolverine’ e ‘Lanterna Verde’. E 90% das piadas funcionam.

Deadpool não teve um orçamento muito alto (estima-se que foi na faixa de US$ 50 milhões), mas a produção soube trabalhar muito bem isso: se não há uma grande cena de ação para chamar de épica, elas, ao menos, foram muito bem coreografadas e o design dos personagens está muito bem feito: além do próprio Deadpool, o Colossus e a Negasonic apresentam um bom CGI e têm um grande desenvolvimento da história. E a montagem do filme, que é primorosa, alterna entre o passado de Wade Wilson (o alter ego do Deadpool) e o anti-herói em ação no presente.

deadpool-movie
Na campanha de marketing do filme, houve uma brincadeira com o fato de Deadpool ser um romance. De fato, há uma grande química entre o protagonista e Vanessa (vivida pela brasileira Morena Baccarin, que está ótima no papel) e a relação dos dois é mostrada de forma mais sexual e menos romantizada, embora o sentimento entre os dois seja visível e convincente.

Mas se os mocinhos são sim, bem desenvolvidos, o mesmo não pode se dizer da dupla de vilões, Ajax e Angel Dust. Parece que a Fox está com o mesmo problema da Marvel Studios em desenvolver vilões e embora o Francis/Ajax seja muito carismático e sempre parecendo ameaçador perante o Deadpool, ele mal é desenvolvido e o inevitável embate entre os dois parece mais uma tentativa de encerrar um filme de ação do que uma necessidade de roteiro. E Angel Dust, que é incrivelmente poderosa, perde tempo demais sendo capanga do Ajax e quem a faz, que é a Gina Carano, mal tem expressão como atriz. Apesar dessa ressalva, é inegável que Deadpool seja um grande filme e até a trilha sonora tem o tom cômico e saudosista (olha Guardiões da Galáxia fazendo escola novamente).

tumblr_inline_nt8ytg1wpO1sl6jqt_500
O filme segue dividindo opiniões: embora muitos saiam com o sentimento bom e com alguns relatos de “melhor filme de herói da história”, outros se incomodaram com o tom maneirista e sarcástico. De fato isso pode incomodar, mas dizer que é o melhor filme do gênero é exagero. Mas se você saiu do cinema empolgado assim, não há nada de errado e é um sentimento normal para nós, fãs de quadrinhos e carentes de uma boa adaptação.
Nota: 9,0