O diretor, escritor e produtor John Hughes morreu em 2009 e até hoje poucos captam o espírito da juventude e mostrá-la de forma honesta. Até onde a memória alcança, somente As Vantagens de ser Invisível conseguiu retratar o universo jovem de forma íntegra, sem estereotipá-lo nos últimos anos.

Até hoje os anos 80 são cultuados e quem viveu a época, vê tudo de forma nostálgica. E para entender a juventude e rebeldia, não existem meios melhores do que o cinema de John Hughes.

Era uma época em que os filmes para adolescentes eram mais um programa para adultos e com um alto conteúdo sexual e daí ele inovou a linguagem da época com os ótimos Gatinhas e Gatões e Mulher Nota 1000, mas foi com Clube dos Cinco, de 1985, que ele atingiu seu auge e até hoje é visto como dos melhores filmes teen da história, justamente pelo roteiro profundo e que trouxe algumas reflexões como a pressão na fase jovem, as máscaras que cada um de nós para ser “aceito” e o dilema das figuras consideradas opressoras, como pais e professores.

Se Clube dos Cinco era um filme mais intimista, e, portanto, dramático, no ano seguinte ele veio com o seu maior sucesso comercial e que se tornou um clássico da Sessão da Tarde nos anos 90 e começo de 2000: Curtindo a Vida Adoidado, ou Ferris Bueller’s Day Off, no título original, que embora ele seja uma comédia pura, ele traz reflexões que servem muito para crianças de 8 a 80 anos de qualquer época e falando de cinema, foi muito inventivo:

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Em Curtindo a Vida Adoidado, o protagonista Ferris Bueller quebra a chamada quarta parede e conversa com o espectador, tornando-o cúmplice da história e mostrando todos os acontecimentos do filme sob seu ponto de vista. E este foi um dos primeiros filmes da história a ter uma cena pós-créditos, que agora teve uma homenagem hilária e honesta em Deadpool. Portanto, a série House of Cards e os filmes da Marvel devem muito a Curtindo a Vida Adoidado.

Outra coisa inventiva é que o filme se passa em apenas um dia, na verdade, em uma única manhã, durante o horário da escola. Ferris finge estar doente para não ir à escola. Seus pais acreditam, sua irmã não. E ele faz, em um curto espaço de tempo, o que muitos não têm coragem de fazer na vida inteira: anda com a Ferrari de seu amigo, Cameron, resgata sua namorada, Sloane, da escola, assiste a um jogo de beisebol, come em um restaurante de elite e no momento mais notável do filme, canta Twist and Shout, dos Beatles em meio a um desfile de carros alegóricos em Chicago. E é das melhores coreografias da história do cinema, com 10.000 figurantes e um grande trabalho para o resultado final, mas valeu a pena.

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Além da irmã de Ferris, Jeanie, o coordenador da escola, Ed Rooney também não acredita na história da doença e persegue o protagonista ao longo do filme – e sempre se dá mal. Mas o colégio inteiro se sensibiliza com a “doença” de Ferris e cria um fundo para arrecadar dinheiro para a recuperação, que ficou muito famoso na vida real: Save Ferris e até hoje aparece na internet.

Engana-se quem acha que Curtindo a Vida Adoidado traz uma mensagem errada para o jovem que assiste por se tratar de uma pessoa que não gosta de estudar. Na verdade, ele traz uma mensagem de encorajamento, que diz que devemos viver mais, aproveitar a vida mais e nos preocupar menos com os problemas: “A vida passa muito depressa. Se não pararmos para curti-la de vez em quando, ela passa e você nem vê” é a reflexão final. Ou “a cidade vista de cima parece tranqüila vista aqui de cima”, diz Sloane no alto de um arranha-céu, em uma cena que claramente inspirou Cidades de Papel ano passado.

Uma metáfora em Curtindo a Vida Adoidado que pode passar despercebida, mas é fundamental para o espírito do filme é que todos os personagens que se preocupam com os outros, com o sucesso alheio e o pior, de viver em função do outro, se dão mal, como Ed e Jeanie, que estão mais preocupados com Ferris do que neles próprios. E o que dizer de Cameron? Que claramente é um adolescente perturbado, principalmente pelo medo de seu pai – e seu desabafo, perto do final, é um grande grito à liberdade.

O filme traz personagens icônicos e alguns coadjuvantes, que mesmo sem querer, ganharam o público: o que dizer do professor de economia? Ele é vivido pelo grande Ben Stein, um escritor respeitado e premiado, mas até hoje, quando o vêem, o povo diz: Bueller, Bueller! E o próprio Stein se diverte com isso.

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A secretária de Rooney, Grace, é um grande alívio cômico em um filme que já é uma comédia, os funcionários da garagem que Ferris deixou a Ferrari – e depois passeiam com ela – e o arrogante garçom no restaurante luxuoso. Todos são personagens que poderiam passar despercebidos, mas sem eles, Curtindo a Vida Adoidado não seria o mesmo.
Até Charlie Sheen, que estava em início de carreira faz uma ponta muito bacana em uma delegacia.

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Quanto ao elenco principal, Ferris Bueller é vivido por Matthew Broderick, que foi indicado ao Globo de Ouro pelo papel e não teve uma carreira muito brilhante, sendo até hoje lembrado por ser Ferris. O mesmo pode dizer de Mia Sara, que faz Sloane e Alan Ruck, que faz Cameron. Jennifer Grey, que interpreta Jeanie, foi a protagonista de Dirty Dancing no ano seguinte, mas também não teve uma carreira consolidada depois disso.

Rever Curtindo a Vida Adoidado, mesmo 30 anos após seu lançamento é uma grande experiência de vida e de nostalgia. E uma prova de que temos os mesmos problemas e angústias de uma geração passada, independentemente da idade. E daqui a 20, 30 anos, ainda falaremos desse grande clássico que nunca fica datado.
Save Ferris!

Nota: 10,0

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