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Trumbo (lançado 28 de Janeiro de 2016 no Brasil, 6 de novembro de 2015 nos EUA) conta a história de Dalton Trumbo, personagem vivido por Bryan Cranston (o cara de Breaking Bad) que, em 1947, quando figurava como um dos principais roteiristas de Hollywood, teve sua prisão decretada e seu nome incluído na lista negra do governo americano devido suas crenças políticas. O filme relata eventos muito importantes da indústria cinematográfica americana e talvez isso seja o grande trunfo do filme. Quanto a parte técnica, tirando algumas atuações aqui e acolá, enfim… digamos que uma história tão rica e pertinente, ironicamente, sobre um dos melhores roteiristas de todos os tempos poderia ser muito melhor contada – não que o problema seja exclusivo do roteiro do filme, longe disso.

Dirigido por Jay Roach (conhecido por comédias de qualidade duvidosas como as franquias de Entrando Numa Fria e Austin Powers) em mais uma guinada para filmes sérios e de cunho político (dirigiu “Virada No Jogo” em 2012 que conta os bastidores da campanha presidencial de John McCain em 2008, por exemplo). A direção é bem intencionada, não chega a ser ruim, mas dá a impressão que poderia ser mais bem feita. E esse é um problema geral do filme, tanto a direção quanto o roteiro passam a impressão de que dava para melhorar. O desenvolvimento dos personagens (com exceção do protagonista, e talvez sua filha Nikola – interpretada pela Elle Fanning) é raso, simplório – e até quando flerta em dar uma maior profundidade a outro, no caso de Arlen Hird – interpretado por Louis C.K, o faz no, aparentemente, único personagem fictício do filme. De maneira geral, os personagens são tipicamente caricatos. Além disso, até o aspecto visual do filme é “água com açúcar” – jogo de luz e câmeras em geral contidos e tímidos, o que não chega a prejudicar o filme, mas também não acrescenta. Sobre as atuações, é covardia julgá-las sabendo que muitos não tiveram o mínimo de material para trabalhar melhor, dessa forma, é mais sensato destacar apenas os principais personagens. O filme foi indicado a 2 Globos de Ouro por atuação (Bryan Cranston, protagonista e Hedda Hopper – coadjuvante no papel de Helen Mirren) e ao Oscar de melhor ator em 2016. Bryan Cranston realmente é um ator fantástico e fez o seu papel muito bem. Vai ganhar o Oscar? Com certeza não, mas uma indicação é justificável… Diferente da Hedda Hopper que até interpreta bem o seu papel (que por sinal é bem superficial), mas indicação para Globo de Ouro é exagero.

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A história que a trama relata é muito boa. Ambientada no auge do Macartismo (que por definição é a prática de acusar alguém de traição sem respeito pelas evidências) que traduzia-se na acentuada repressão política aos comunistas (e de tabela, muitos que sequer eram comunistas, muito menos tinham ligação com a URSS ou qualquer outra paranoia a respeito) no período da Segunda Ameaça Vermelha (pouco depois da Segunda Guerra Mundial) nos Estados Unidos. Dessa forma, em 1947, Trumbo e outros nove diretores e roteiristas (Os 10 de Hollywood) tiveram que depor numa comissão parlamentar de inquérito para averiguar a suposta infiltração de comunistas na indústria do cinema. Nessa questão o filme funciona bem – o patriotismo exacerbado e cego que gera o ódio difundido de parte da população com os “comunistas” é bem retratado e pode tocar na ferida de alguns radicais da direita até mesmo hoje em dia (embora seja difícil tais radicais se permitirem ver um filme sobre um “esquerdista” como o protagonista). O que o filme relata é, infelizmente, muito atual e não só nos EUA (vide a ascensão política de figuras como de Donald Trump – não “Trumbo”!), mas também no Brasil – onde os debates políticos entre cidadãos estão cada vez mais escassos e o que se vê são torcedores fazendo barulhos sobre seus pensamentos serem melhores que os dos outros. Basta lembrar o caso recente em que o músico, escritor e dramaturgo (e gênio) Chico Buarque foi chamado de “merda” por simplesmente divergir das posições políticas dos agressores – e olha que no caso do Brasil, não há extremos como capitalismo x socialismo, há muito mais semelhanças entre as oposições do que no contexto do filme). Além disso, houve tempo em que o próprio Chico tivera que lançar mão de certos trabalhos, letras de músicas, e até recorrer a um pseudônimo (Julinho da Adelaide) para tentar driblar a censura que a essa altura já estava ciente de suas “ideologias”. Trumbo e Chico são muito parecidos nesse aspecto, é fácil prever que seus “caçadores” também são similares. Hoje, seja nos EUA como no Brasil, depois de muita luta e vítimas, pode-se criar a vontade: existe a tal liberdade de expressão. A diferença é que agora é legal expor suas opiniões sejam quais forem, porém, para muitos, legal mesmo é sair por ai vomitando asneiras (e xingamentos) sobre a opinião dos outros.

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O filme Trumbo funciona bem em diferentes momentos: seja na crítica à perseguição política infundada, seja relatando um pouco dos bastidores da indústria cinematográfica americana, ou seja até mesmo na indagação de quantos filmes podem nunca terem sido feitos por conta dessa época de censura. Mas talvez o maior erro do filme tenha sido acreditar muito na história e deixar de lado os outros aspectos de um longa. Quero dizer, a história é boa? Sim. E a história foi contada? Sim. Então quer dizer que a história foi bem contada? Não. É mais ou menos isso que acontece com Trumbo. E tudo isso é muito irônico porque o protagonista nada mais é do que um contador de histórias – para filmes, ainda por cima. Mais uma vez, não digo que seja um filme ruim, longe disso, mas para o potencial que tinha, deixou um pouco a desejar.

Nota: 7.5

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