Séries de comédias românticas, em sua maioria, são roteiros baseados em repetições de clichês das situações mais absurdas que poderiam acontecer quando se vive a “normal life”. Essa estrutura é feita no intuito de dar ao espectador uma dose de esperança, na medida específica para que ele não sinta mal com felicidade alheia ao mesmo tempo que possa acreditar que também é digno de ser feliz ao lado de um grande amor, assim como o personagem no episódio da semana. Se a dose de esperança for a errada, a série fica chata e é cancelada. Se a dose for a certa, temos um gostoso seriado, como por exemplo: Love, a mais nova produção original da Netflix.

A primeira temporada de Love gira entorno do encontro amoroso entre os jovens Gus (Paul Rust) e Mickey (Gillian Jacobs) na cidade de Los Angeles. Gus é um professor de set frustrado, enquanto Mickey é produtora de um programa de rádio sobre aconselhamentos sentimentais. A cidade de Los Angeles funciona como pano de fundo da história dos dois personagens, que se conhecem numa loja de conveniência posicionada estrategicamente entre suas casas. E apesar desses fatores técnicos de posicionamento de personagem e ambientação na trama possam parecer inúteis, são justamente eles que envolvem o espectador e transformam Love numa experiência diferente dos seriados de comédia romântica comuns.

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Cada episódio de Love é uma batalha que constitui a guerra do relacionamento entre duas pessoas totalmente diferentes, mas que compartilham a necessidade de se sentirem completadas por um amor simbólico. Gillian Jacobs (Community) representa a personagem Mickey dentro do esteriótipo “junkie funcional”, onde seus problemas se resumem a não acreditar em si mesma e na possibilidade de encontrar alguém com quem possa dividir sua vida de maneira não destrutiva. Paul Rust faz o caminho contrário, levando o personagem Gus muito além o arquétipo do “nerd inseguro”. Até mesmo a cidade Los Angeles funciona como algo que vai além de ser apenas o cenário decorativo no qual o casal vai viver seus amores e desgostos. As peças fundamentais de Love giram entorno de contar uma história de amor real, com qual o espectador vai se identificar sem ficar questionando os clichês irrealistas.

Ressaltar a excelência da produção é chover no molhado, até porque ela parece carregar a tal “liberdade” que a Netflix tem conseguido mostrar em todas as séries e filme em que investe. Porém podemos falar sobre o roteiro, e… cara, que roteiro foda!

Hoje em dia se tornou normal séries e filmes que fazem citações diretas a outras produções, entendemos que essa é uma maneira de criar elos com o público e mostrar que a produção em questão está no nosso mundo. Porém – e esse é um grande porém – não é todo roteiro que consegue fazer isso de uma forma legal. Não adianta apenas colocar o personagem falando que assistiu a trilogia do Poderoso Chefão, é preciso que o espectador acredite nisso. Love consegue esse efeito de credibilidade sem fazer o menor esforço. Gus (Paul Rust) é o típico nerd que faz citações de filmes que marcaram sua vida, porém não são os filmes clichês de sempre, nada de Star Wars ou Senhor dos Anéis. Esse micro detalhe faz toda a diferença no final, porque o espectador se sente ouvindo uma pessoa real comentando sobre um filme ou seriado que viu quando era criança. Até a situação do alcoolismo da personagem Mickey (Gillian Jacobs) é tratado de maneira realista, sem apresentar uma cura milagrosa apenas para que ela possa se desenvolver em tempo record dentro da trama.

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Possivelmente a coisa mais saborosa sobre Love esteja justamente fora do espectro romântico da série. Com explicado no início do texto: comédias românticas são sobre clichês e esperança, mas ao mesmo tempo é necessário que alguém em algum momento pense em fazer algo diferente, capaz de sacudir nossos conceitos tentando derrubar o clichê estabelecido sem precisar usar de violência intelectual. É dentro dessa descrição complexa que Love se encontra. Love é um seriado de comedia romântica que te dá a dose certa de esperança, sem precisar debochar da sua inteligência e enquanto te mostra clichês vivenciáveis.

Nota: 8,0