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Shonda Rhimes é dos maiores nomes da TV americana e das maiores – se não, a maior – showrunner da atualidade. Mas tudo começou lá em 2005, quando foi lançada na canal aberto ABC uma nova série médica, na qual muitos viam com desconfiança, já que ER ainda passava e embora estivesse desgastada, tinha um público fiel. E a grande Dr. House, que havia estreado um ano antes na Fox, tinha sido elogiada por público e crítica. E a própria Shonda ainda não tinha muita coisa no currículo: o roteiro de ‘Crossroads – Amigas para Sempre’ e ‘Diário da Princesa 2’ não queriam dizer muita coisa, mas eis que Grey’s Anatomy estreou e foi um grande fenômeno de audiência e foi elogiada pela crítica.

Embora a internet estivesse já consolidada como uma grande mídia na época, o grande público ainda via episódios de séries pela TV, já que os serviços streaming ainda nem sonhavam que ganhariam um lugar ao sol. Porém afinal, o que Grey’s Anatomy tem de tão especial para ter essa audiência tão grande e consequentemente essa legião de fãs? E ainda com 11 temporadas já completas e a 12ª no seu hiato de fim de ano?

Todos sabem que fazer séries não é fácil. Ao passo que elas cresceram a um nível extraordinário nos últimos anos e que elas estão melhores do que o cinema no quesito criativo e ousado, toda e qualquer série tem a preocupação de manter a audiência e a qualidade ao mesmo tempo. Acontece muito de uma série perder esses dois fatores – audiência e qualidade – com o passar das temporadas e manter o interesse do público é um grande desafio.

A própria Grey’s Anatomy tem falhas no meio do caminho, o que seria inevitável com seus mais de 200 episódios já exibidos em temporadas de 24 episódios cada. Isso é uma característica das séries de TV aberta, de apresentar séries com mais de 20 episódios, o que torna muito mais difícil (e caro!), fazer uma série assim no que uma de canal fechado, como Showtime, HBO e Netflix, já que as séries de TV aberta, como da ABC ou CW, por exemplo, têm a preocupação do “politicamente correto”, na qual a violência é moderada e não há cenas de nudez, por exemplo. Sem contar que cada episódio deve deixar o gancho para o próximo – e também para o intervalo comercial. Já uma série como House of Cards (da Netflix) e The Affair (do Showtime), por exemplo, além de possuírem menos episódios (entre 10 e 13), podem ser encaradas como um grande filme, sem a necessidade do gancho para o episódio seguinte e podem ser vistas na formato “binge-watching”, que é a famosa maratona.

Hoje Grey’s Anatomy é o carro chefe da ABC, que também tem Agents of SH.I.E.L.D. e Once Upon a Time. E o grande diferencial de Grey’s Anatomy é justamente o investimento em relações humanas, na qual o espectador se envolve emocionalmente com o drama dos personagens e até com o drama dos pacientes.

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Grey’s Anatomy se passa no hospital Seattle Grace, na qual um grupo de médicos internos chega ao local e é lá que se passa a maior parte dos acontecimentos da série. Meredith Grey (Ellen Pompeo) é a protagonista, é a pessoa que move a trama e é a narradora da maioria dos episódios. Junto com os outros internos, Cristina, Alex, George e Izzie, eles vão ter que lidar com a pressão do trabalho e de suas vidas amorosas.

Logo no episódio piloto, algumas coisas são esclarecidas em relação a alguns personagens: Bailey é uma médica brilhante, porém arrogante, mas que a plateia logo cria uma simpatia por ela – e rouba todas as cenas. Richard é o diretor do hospital e embora tenha que manter a imagem de superior, ele – assim como todos os personagens – vive com os seus demônios internos e tem envolvimento emocional com outras de suas colegas.

Isso é uma reclamação de muitos sobre a série, de que todos se envolvem com todos e que nenhum deles sabe diferenciar o pessoal do profissional, mas isso é um problema? Sim e não: é ruim colocar os interesses pessoais acima dos profissionais, ainda mais se tratando de um trabalho que lida com vidas humanas, mas é inegável que eles passam muito mais tempo trabalhando do que em casa e algo sempre pode escapar.

E outra coisa que fica clara também é que Meredith e Derek são um casal que se ama e apesar descobrirmos que ele é casado com a Dra. Addison (Kate Walsh, outra que rouba a cena), eles vão e voltam e ao mesmo tempo que isso se torna interessante, começa a incomodar até que eles se assumam de vez.

E a Dra. Addison, que só aparece no final da 1ª temporada, é um personagem tão incrível e admirada pelo público que ganhou uma série só para ela: em 2007, quando Grey’s Anatomy já tinha muitos fãs, ela ganhou um spin-off: Private Practice, que mostra o que se passava em Los Angeles quando enquanto a personagem não estava em Seattle, já que a partir da 4ª temporada ela só aparecia em Grey’s Anatomy em algumas participações especiais até que ela deixou de aparecer a partir da 8ª temporada.

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Outra característica de Grey’s Anatomy, aliás, são os personagens que simplesmente deixam de aparecer na série – a maioria porque morreu. Existe, inclusive uma brincadeira online na qual Shonda Rhimes é a “George R. R. Martin” da TV aberta. Exagero? Novamente sim e não. Uma série precisa se renovar conforme ela vai evoluindo e dependendo do roteiro, até uma grande reviravolta é aceita. No caso de Grey’s Anatomy, ela realmente faz um rodízio de personagens e por diversas vezes há a inserção de novos internos e médicos que a permanência depende da aprovação do público (que foi o caso de Callie e Arizona, por exemplo). Mas isso faz todo o sentido se pensarmos que em um hospital os médicos vão e voltam.

Há dois personagens que saíram que marcaram os fãs: um no final da temporada 11 e a atriz Katherine Heigl. Esse personagem da temporada 11 (que não falaremos aqui qual é, pois seria um grande spoiler) gerou um barulho tão grande quando foi anunciada sua morte que até hoje há fãs que pedem sua volta – mas quem viu o momento sabe que foi necessária a renovação.

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E no caso de Katherine Heigl foi mais capricho da atriz do que necessidade da série: ela estava muito bem fazendo sua Izzie, inclusive ganhando o Emmy de Atriz Coadjuvante. Mas ela começou a fazer alguns filmes, como ‘Ligeiramente Grávidos’ e  simplesmente decidiu que seria atriz de cinema e abandonou a série. A decisão foi um tiro pela culatra, já que nunca mais fez um filme bacana e agora vive sendo indicada à Framboesa de Ouro.

É fato que Shonda Rhimes às vezes exagera nas reviravoltas e, para justificar uma nova temporada, coloca algum evento muito extraordinário para fechar uma temporada, como o homem que entra armado no hospital, ou o acidente de avião, até um leão que invade o hospital de forma constrangedora. Porém ela apendeu a fazer TV e hoje está mais contida. Sua série seguinte, Scandal, tem um saldo melhor do que Grey’s Anatomy e para 2016 será lançada uma nova série médica de sua autoria.

Grey’s Anatomy é uma boa série e não é “série de menina”, como alguns dizem. É para todos os públicos, fala de relacionamento e do quanto somos imaturos no que diz o coração. E não é isso que somos?

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