Não existe sentimento mais complicado de entender do que a nostalgia. No mundo das séries ela anda batendo forte ultimamente e como o mercado de entretenimento é baseado no que o cliente deseja e não no bom senso, um movimento de retorno de volta dos seriados nostálgicos começou esse ano com Full House, agora como uma produção da Netflix e com o nome de Fuller House.

Para quem não se lembra: Full House é um sitcom clássico de comédia onde a família Tenner tenta sobreviver ao dia a dia do norte americano caucasiano de classe média (sic). Aqui nas terras tupiniquins o programa recebeu o nome de “Três é Demais” e fez um longo sucesso por conta das incansáveis reprises do canal SBT. O seriado ficou no ar de 1987 a 1995 (EUA) e com isso nos possibilitou ver o que seria, talvez, a morte de um formato. Depois de Full House foram poucos os seriados que mantiveram uma dinâmica familiar tão sadia e abordando temáticas tão sentimentais e ao mesmo tempo fúteis.

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Não era qualquer um que se identificava com Full House, apesar das piadas e momentos cômicos serem de uma simplicidade absurda. Os conceitos familiares simples e até mesmo rasos, eram completamente divergentes do tipo de produções que estavam surgindo na época. Apenas 2 anos depois de Full House estrear, The Fresh Prince of Bel-Air ia para o ar abordando temas como preconceito racial, desigualdade social e a presença de negros em cargos de poder. Como no início dos anos 1990 a variedade de produções não era muito grande, Full House ganhou o status de seriado que todos queriam rever, seja pela curiosidade de “descobrir” o que aconteceu com os personagens ou apenas para sentir novamente as emoções que ligamos ao programa.

A Netflix ouviu o desejo do público e resolveu que estava na hora de reviver os velhos personagens e a dinâmica entre eles, e talvez essa tenha sido uma das decisões mais questionáveis que a empresa de streaming tomou nos últimos anos.

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Full House agora se chama Fuller House, uma espécie de piada com o sobrenome que foi adicionado a personagem DJ Tenner. Não chega a ser uma mudança muito pesada. O problema é que o espectador precisa estar atento, pois essas e outras informações são ditas tão rápido que é impossível não ficar se questionando sobre esses 20 e poucos anos que se passaram e prestar atenção ao que está na tela ao mesmo tempo. Provavelmente  a mudança mais cruel com o espectador seja referente aos personagens que protagonizam a nova série.

[INÍCIO DO SPOILER!] Após 21 anos, DJStephanie cresceram como era de se esperar. A primeira é uma viúva mãe de 3 filhos, enquanto a segunda é uma DJ internacionalmente conhecida. Danny, Joe e Jesse envelheceram bem e parecem ter tido o merecido “final feliz” depois de três décadas criando crianças extremamente bagunceiras. Até a chata da Kimmy Gibbler cresceu, casou com um argentino e teve uma filha. Linhas temporais normais na vida de muitas pessoas, correto? Porém o que muitos dos espectadores esperavam era que a estética e o roteiro do seriado acompanhasse o crescimento dos personagens e mostrasse algo um pouco mais… “sincero”. Já no primeiro episódio somos apresentados a ideia de que não vamos mais ver um programa sobre três homens criando um bebê, agora são três mulheres (D.J., Steph e Kimmy) e tantas crianças que admito ter perdido a conta várias vezes sobre quantas pessoas são capazes de viver dentro de uma casa de arquitetura vitoriana em San Francisco. [FIM DO SPOILER]

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A nova estrutura proposta para o seriado é tão forçadamente parecida com o programa antigo, que em alguns momentos o espectador se vê jogado para dois lados diferentes de uma moeda de agrado. Uma hora querem agradar os nostálgicos  mostrando piadas  e conceitos que eram engraçados em 1987, para logo depois tentar criar um elo com a nova geração retirando os “personagens autores” das mesmas piadas e inserindo em seu lugar crianças nunca vistas e com pouco carisma se comparado ao antigo programa. Ou seja, Fuller House tenta o tempo todo se comunicar com dois públicos que tem desejos diferentes. O espectador que está ali para ver o que aconteceu com seus personagens favoritos é enganado com versões mais jovens, enquanto o espectador novo (no geral crianças de 8 à 13 anos) é enganado vendo uma produção de conceitos e piadas ultrapassadas, bem diferente do sarcasmo e ironia de senso comum dos programas atuais.

Vi todos os episódio disponíveis e em nenhum momento me senti atendido ou satisfeito. Resolvi colocar uma criança de 10 anos (e que vê 4 seriados por dia) para ver junto comigo, e não foi muito surpreendente  quando ela puxou o celular e perdeu totalmente atenção do que estava passando na tela. Depois tentei confrontar essa “testadora mirim” sobre o que havíamos acabado de assistir e a única resposta que obtive foi “é meio chato, né?”. Sim… Fuller House é extremamente chato. Talvez até o original Full House fosse tão chato quanto, mas não sabíamos disso apenas pela falta de comparativos.

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Não podemos dizer que a Netflix “errou” ao tentar reviver o seriado. O primeiro episódio vale seus 30 e poucos minutos, porque é nele que respondemos a temida pergunta “por onde andam os Tenner agora?”. Porém é tanto desgosto ao mesmo tempo que chega a amargar. O público do seriado original está hoje dentro da faixa etária dos 30 e tantos anos e já tem o poder de questionar coisas que antes não eram explicadas. O público novo do seriado já nasceu num mundo cheio de sarcasmo pré embutido em quase tudo que assiste. Então quem Fuller House quer agradar nessa tentativa de rever um modelo tão antigo e ultrapassado? Só esse questionamento já me faz dar uma nota bem baixa, mas como não sou apenas um coração gelado, darei nota 4,5 e já acho muito.