Quando a Pixar anunciou seus próximos filmes e veio a notícia de um Toy Story 4, eu lembro que fiquei indignado. John Lasseter disse que seria uma história a parte dos três primeiros filmes, mas mesmo assim eu continuei achando ruim, afinal o terceiro filme encerrou tudo de maneira impecável. Isso até perceber: porque a Pixar estaria fazendo um Toy Story para os marmanjos que tiveram sua infância marcada com o filme de 1995? Minha história com a turma de Woody acabou lá em 2011 mesmo, com Andy se despedindo dos seus brinquedos. Os três primeiros filmes sempre estarão ali para que eu relembre da minha infância, não é mesmo?

Corta para 3 de março de 2016. A internet está a beira de um colapso após o lançamento do primeiro trailer de As Caça-Fantasmas, reboot do filme de 1984, dirigido por Paul Feig e com Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Kate McKinnon e Leslie Jones nos papéis principais. Uma chuva de comentários sobre infância assassinada, destruição de um clássico e muitas afirmações de que esse é um dos piores filmes de todos os tempos. Só reforçando que estamos a quatro meses da estreia.

A Sony foi ousada (para não dizer maluca): Resolveu mexer no pior dos vespeiros, num sentimento delicado, extremamente sensível e muito fácil de ferir: o saudosismo. Os Caça-Fantasmas, juntamente com filmes como De Volta Para o Futuro, Curtindo a Vida Adoidado, Os Aventureiros do Bairro Proibido e tantos outros, se transformaram em totens sagrados intocáveis para quem foi criança ou adolescente nos anos 80. Fazer qualquer coisa com eles que saia da zona de conforto é visto como algo muito pior que errado: é verdadeiramente criminoso. E já deu para ver que Paul Feig jogou a zona de conforto longe quando fez esse filme.

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Antes de continuar (e antes de você enviar um comentário me xingando que já deve estar escrito), é importante deixar claro: a Sony errou feio com esse primeiro trailer (veja bem, com o trailer, não com o filme, que eu ainda não vi). Mas os erros não tem nada a ver com a infância de ninguém e sim com o fato de que quem montou o trailer não faz ideia do que é a produção ou tem a intenção de sabotá-la. Ele começa dando a entender que é uma continuação quando na verdade é um reboot (como já foi confirmado repetidas vezes pelo diretor), a edição é péssima, faz parecer que é um filme de ação enquanto as cenas mostradas evidenciam que é uma comédia e desperdiçam uma quantidade gritante de piadas (e isso independe delas serem boas ou ruins) logo no primeiro trailer.

Achei longe de ser digno dessa controvérsia toda, mas realmente foi esquisito e agora a Sony vai precisar correr atrás do prejuízo para tentar mudar a opinião do público, que já carimbou que o filme será péssimo com base em dois minutos e meio de cenas. O mais interessante, porém, é que a repercussão desse trailer foi talvez o ápice do comportamento do público na internet pós-redes sociais, além de evidenciar como o saudosismo às vezes pode ser um pouco assustador.

Alguém já parou para pensar na possibilidade da má qualidade de As Caça-Fantasmas estar resumido a um trailer mal feito ? Não seria o primeiro filme que sofreu isso e sem dúvida não será o último (o trailer de O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel  chega a dar vergonha alheia de tão cafona, só para dar um exemplo). Todas as piadas mostradas são bobas mesmo (e ficaram piores com a já citada péssima edição do vídeo), mas talvez a memória afetiva impeça de lembrar que o filme original não contava com tiradas exatamente geniais. É sem dúvida um filme divertido, mas prezava pela simplicidade, principalmente no seu humor, que, aliás, é retrato do seu tempo. Esses personagens não são um dos maiores ícones do cinema na década de 80 à toa: Os Caça-Fantasmas é um filme com todo o estilo, dinâmica e estrutura dos blockbusters da época. E acertou na mosca o seu público-alvo, que 30 anos depois está xingando o trailer de um filme que não foi feito para eles.

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Pois é, eu também fiquei chocado quando tive essa descoberta com Toy Story 4, mas é isso mesmo: As Caça-Fantasmas não está mirando em quem foi criança nos anos 80. Na verdade, não estão mirando nem em quem foi criança nos anos 90. O foco é a nova geração. A estratégia poderia ser diferente? Sem dúvida, poderiam ter se inspirado em O Despertar da Força e Creed – Nascido para Lutar, criando um filme para os mais novos sem esquecer-se dos fãs de longa data. No entanto, Paul Feig decidiu ir por outro caminho. As referências estão lá, as quatro personagens, de uma forma ou de outra, remetem ao quarteto original, mas o foco não é na nostalgia.

É um filme desnecessário? Claro que é. Apesar de Os Caça-Fantasmas passar longe de ser tão atemporal quanto a trilogia De Volta Para o Futuro, por exemplo, não havia motivo para tirá-lo dos anos 80. Mas se a discussão for para o lado da necessidade que alguns filmes têm de existir, é melhor suspender a coluna e fazer um podcast, porque o assunto vai longe. As Caça-Fantasmas, assim como tantos outros remakes e reboots vão acontecer e o que resta é torcer para que funcionem.

E caso o filme acabe sendo realmente ruim. Peter, Raymond, Egon e Winston sempre estarão prontos para serem revistos… é só chamar.