Desde que Harry Potter e Senhor dos Anéis ganharam vida nos cinemas em 2001, adaptar obras literárias passadas em universos fantásticos é a palavra de ordem dos estúdios. Embora existam fracassos e desastres como Eragon e Bússola de Ouro, de vez em quando os estúdios conseguem achar uma mina de ouro e produzir uma saga que vire fenômeno pop – Crepúsculo e Jogos Vorazes foram grandes acertos no quesito comercial.

Porém existe uma coisa curiosa nessa movimentação de adaptações: quando uma tentativa fracassa, o estúdio não arrisca uma continuação e geralmente fica no primeiro filme – Os Instrumentos Mortais está aí para comprovar. Se um filme tem um faturamento modesto e apenas “se paga”, o estúdio fica sem saber o que fazer e continuar ou não com algo para se tornar uma franquia depende da acolhida popular. E é justamente nesse quesito que a saga Divergente se encaixa. Quando veio o primeiro filme da saga, ficou claro de que seria o sucessor espiritual de Jogos Vorazes e a Lionsgate, produtora das duas franquias não escondeu a empolgação na época.

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Divergente teve um modesto sucesso, foi destruído pela crítica, mas ganhou uma legião de fãs, tanto dos livros como do filme e esse foi o catalisador para que os filmes tivessem continuidade na telona. Até aí não há nada de errado, pelo contrário, se uma franquia é pensada para mais de um filme e tem continuidade nos cinemas, é sinal de que os produtores e o estúdio (em tese) respeitam seu público, mas no caso particular da franquia Divergente, houve um problema: ela repetiu o que Harry Potter, Crepúsculo e Jogos Vorazes e dividiu o último livro em dois filmes.

Quem leu Convergente, sabe que o livro não tem esse conteúdo para ser dividido em dois. Não há um momento de impacto para encerrar a história na metade e continuá-la depois. Nem mesmo a franquia é um fenômeno a ponto de se prolongar até as últimas conseqüências. No caso dos três filmes de Divergente, nem dá para dizer que os livros são melhores. Há vários problemas na história contada por Veronica Roth, sobretudo porque aborda o tema muito interessante do futuro distópico em que a sociedade é dividida em facções, ainda que  foco é maior seja romance entre Tris (Shailene Woodley) e Quatro (Theo James). Neste livro mesmo, há um grande arco sobre manipulação genética que, nas mãos certas, poderia ser uma história épica de ficção científica, mas no término do livro se torna comum e esquecível.

Na história, após a morte de Jeanine e da mensagem de Edith ter sido revelada, é Evelyn (Naomi Watts), a líder dos sem-facção, que praticamente toma o posto de vilã, mas se revela tão cruel. Um grupo formado por Tris, Quatro, Caleb (Ansel Elgort), Christina (Zoë Kravitz), Peter (Miles Teller) e Tori (Maggie Q) consegue atravessar o muro em Chicago e descobre que há um mundo fora das facções, onde os divergentes são manipulados geneticamente e segregados em “puros” e “defeituosos”, o que leva “nossos heróis” novamente à tentar derrubar o sistema e quem está por trás de tudo.

Quem não conhece a saga dificilmente vai conseguir compreender Convergente, já que este é o 3º filme de uma franquia com quatro programações e praticamente não há começo nem final. Filme já começa do ponto do final de Insurgente e termina em aberto, se preparando para uma finalização que só virá em 2017.

Dos três filmes até agora, Convergente é o mais fraco. Nenhuma das duas primeiras produções primava pela qualidade, mas pelo menos via-se um interesse por parte do elenco e um esforço dos atores. É a prova de como uma grande atriz como a Kate Winslet faz falta, deixando saudades de Jai Courtney, que é um ator limitado, e o vilão Eric.

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O elenco jovem de Convergente não é ruim, chega a ser “bom” se levado em conta suas limitações. Shailene Woodley é uma boa atriz e mesmo no primeiro filme se mostrava mais à vontade como a protagonista Tris, porém em Convergente sua atuação está praticamente robótica e sem expressão, parecendo querer se livrar logo da saga, assim como Kristen Stewart fez nos últimos filmes de Crepúsculo. O Miles Teller, que já vimos o talento dramático em Whiplash, passa o tempo todo soltando piadas e sendo um alívio cômico que não tem graça. Não é exatamente uma falha como ator, mas sim do roteiro que o faz soltas algumas piadas em momentos de tensão ou de ação, fazendo a cena perde todo o sentido e a ação perder o impacto enquanto a piada perde a graça. Até duas atrizes de Oscar estão desperdiçadas em Convergente: Octavia Spencer como Johanna, mas principalmente Naomi Watts, que poderia dar uma vivacidade ao papel de “vilã” que exigia, mas o pouco tempo de tela e a falta de aprofundamento em seu personagem fazem com que sua Evelyn seja uma vilã esquecível.

Tudo em Convergente é mostrado “por cima” e sem aprofundamento, seja a questão da genética, de mudança de governo ou de sobrevivência. São grandes temas e o roteiro faz questão de desperdiçar tudo isso. Muita gente reclama de Jogos Vorazes pelos mesmos motivos, mas na saga de Katniss havia reflexões sobre regimes ditatoriais e de manipulação da mídia, e Convergente é tudo de forma superficial e juntando com os atores sem expressão, é impossível um envolvimento emocional.

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Quem dá um pouco de vida a esse desastre é justamente o personagem de Jeff Daniels, que só pela expressão e presença imponente já deixa claro que se trata de um personagem dúbio e a ser descoberto, quanto mais se sabe sobre ele, mais interessante ele fica.

Em todas as franquias de literatura, havia uma preocupação com a evolução da história e dos personagens. Mesmo Crepúsculo, com todas as suas falhas, se preocupava em tentar crescer como saga. Já aqui em Divergente, vemos uma regressão de tudo. E o caminho parece sem volta.

Nota: 2,0