Ontem, caçando uma playlist decente no Spotify para sobreviver às 4 horas dentro do carro voltando de viagem, achei um prato cheio para cinéfilos: Best Original Songs (aos usuários do aplicativo, vale conferir), uma lista de músicas que venceram o Oscar de Melhor Canção Original. E como não precisa de muito para despertar reflexões malucas por aqui, essa playlist me fez pensar na importância das canções originais para o cinema, do poder que elas têm de marcar e definir um filme e é claro, nas minhas favoritas.

Isso, aliás, me faz retornar à coluna da semana passada, quando falei de Caça-Fantasmas. O tema do filme é talvez um dos maiores exemplos do poder das canções e da capacidade que elas têm de transcender a sétima arte. Não importa se você assistiu ou não a clássica comédia sobrenatural, é só falar o nome do filme que todo mundo só consegue lembrar-se da divertida música de Ray Parker Jr.,que inclusive foi indicada ao Oscar – mas perdeu para Stevie Wonder e sua “I Just Called to Say I Love You”.

O mesmo pode ser dito de Titanic – quer dizer, quase o mesmo, será que alguém não assistiu esse filme? – e a grudenta canção vencedora do Oscar de Celine Dion, “My Heart Will Go On”. Falar na superprodução de James Cameron já traz a imagem pronta de Leonardo DiCaprio e Kate Winslet na proa do navio de braços abertos ao som da música. Ou ainda da franquia Rocky, que mesmo tendo seis filmes e um tema incidental composto por Bill Conti que está presente em todos eles, disputa a memória afetiva do público com o maior (e um dos únicos pra falar a verdade) sucesso da banda Survivor, a excelente “Eye of the Tiger”, criada apenas para Rocky III.

Também existem casos ainda mais impressionantes, de quando a música se torna mais lembrada do que o filme para a qual ela foi feita. Todo mundo sabe que a singela “Ben” é um dos clássicos de Michael Jackson pré-“Off the Wall”. O que quase ninguém sabe (ou lembra) é que ela foi composta para um filme de terror de mesmo nome sobre um rato assassino (é sério). “Endless Love”, de Lionel Ritchie e Diana Ross, é talvez uma das baladas românticas mais famosas da história, já o filme de mesmo nome para o qual ela foi composta, nem tanto. E você já deve ter ouvido “Blaze of Glory”, de Jon Bon Jovi, mas dificilmente assistiu Jovens Demais para Morrer, filme em que ela está presente.

Mas o melhor de uma canção original é o desafio que o compositor tem, na maioria dos casos, de definir o filme inteiro em uma única música (não se aplica aos musicais da Disney, é claro). Isso é uma constante na franquia 007 e quase sempre, acertam na mosca.

Dá para fazer uma coluna à parte sobre a música em 007, mas só para não deixar passar em branco, a maior parte das canções criadas para as missões de James Bond conta com uma variação do tema incidental de John Barry, um vocal poderoso (normalmente feminino) e a letra tratando de algum aspecto da história em questão ou do próprio Bond, mesmo que muitas vezes de forma sutil. Quando fogem do padrão, o resultado pode ser ainda melhor (como “You Know My Name”, agitada, com os vocais rasgados de Chris Cornell e perfeita para representar o que 007 – Cassino Royale trazia para a franquia: um Bond mais bruto e bem diferente, mas ainda o mesmo personagem – por isso a música tem esse nome), mas normalmente é desastroso (como a medonha “Die Another Day”, de Madonna e “Another Way to Die”, de Jack White e Alicia Keys – a semelhança nos nomes das músicas provavelmente indica outro padrão).

Fora do universo do agente secreto, a voz suave, mas poderosa de Annie Lennox canta sobre o fim de uma jornada em “Into the West”, dando o tom perfeito para O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, a melancolia de “The Wrestler”, de Bruce Springsteen, deixa claro que O Lutador não é exatamente um filme sobre luta livre e nem precisa se esforçar muito para dizer o quanto “Back in Time”, de Huey Lewis, define De Volta Para o Futuro.

Esses são só alguns poucos exemplos de canções que acertaram em cheio nos seus respectivos filmes e ainda dá para passar um bom tempo falando de outras grandes músicas que marcaram o cinema (mas eu não vou fazer isso, pelo menos não aqui). Ah e eu falei sobre ter pensado nas minhas favoritas lá no começo do texto… é claro que eu não cheguei a uma conclusão, só para ter uma ideia, eu adoro mais da metade das canções que eu citei aqui (e acabei de lembrar de algumas que não citei, enquanto escrevia a última frase, como todas as músicas de Eddie Vedder em Na Natureza Selvagem).

Então, como o texto já está grande, vou sair pela tangente e dizer que isso é assunto para uma próxima coluna…