40 anos se passaram desde o lançamento de Taxi Driver e a cada vez mais ele se torna assustadoramente atual. Os costumes da época estão lá, obviamente, desde o figurino peculiar dos anos 70 até a alguns comportamentos, mas parece que Taxi Driver foi filmado por esses dias. E não importa se o filme faz um retrato de Nova York: poderia ser qualquer lugar do mundo. Poderia, inclusive, ser de uma grande metrópole brasileira.

O mestre Martin Scorsese já havia mostrado seu talento atrás das câmeras em filmes como Caminhos Perigosos e Alice Não Mora Mais Aqui (filme que deu o Oscar de Melhor Atriz para Ellen Burstyn), mas foi a partir de Taxi Driver que ele se consolidou como um grande cineasta, na verdade, dos poucos autores da Hollywood atual. Ele é um fã incondicional de sua cidade natal,  como visto em Gangues de Nova York, porém aqui ele retrata a “Big Apple” de forma soturna e realista, falando muito com o cinema dos anos 70, época onde os grandes filmes continham um roteiro pessimista e com mais pé na realidade. Possivelmente por esses motivos, Taxi Driver tenha saído quase ignorado do Oscar de 1977 (Scorsese nem foi indicado ao prêmio de Diretor) e a Academia se rendeu ao otimista Rocky – Um Lutador.

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Taxi Driver nem foi tão bem de bilheteria. Na verdade, os filmes de Scorsese só começaram a ter um bom público neste século 21. Até então, suas produções eram elogiados pela crítica e quase vistos como cinema de nicho. Era uma época em que o cinema de autor ainda era fortíssimo em Hollywood, embora no ano anterior estivéssemos sob os efeitos do arrasa-quarteirão Tubarão, iniciando a era dos “filmes de verão”.

Na história de Taxi Driver, Travis, vivido por um Robert De Niro inspiradíssimo, vive sozinho entediado e aceita um emprego de taxista noturno em Nova York. Lá ele tem contato com o submundo da cidade: drogas, sexo, prostituição, violência, tudo sob o olhar de um personagem que já mostrava um desequilíbrio. “Um dia, uma chuva vai lavar toda essa escória das ruas”, é uma de suas frases mais icônicas. Conforme Travis conhece as ruas, mais perturbado fica e praticamente ninguém o respeita, sobretudo as mulheres da sua vida. Betsy, que trabalha na campanha política de um senador, personagem pela qual Travis se apaixona, o despreza. Iris, uma prostituta nova que Travis “protege”, o considera um perdedor. E seus poucos amigos não o levam a sério. Dirigir, guiar passageiros, ouvir histórias se torna sua única razão de viver. Um dia sem trabalho para ele era como um dia sem respirar. O trabalho dava uma sensação de poder à ele perante a “escória” do mundo. Até a participação do próprio Scorsese como um passageiro que descobre que sua esposa o trai, mostra como era o dia a dia do taxista.

Junto com Touro Indomável (também parceria entre De Niro e Scorsese), Robert De Niro faz o melhor papel da sua carreira em Taxi Driver. Ele trabalhou durante 12 horas por um mês como motorista de táxi e faz um Travis icônico e histórico. O momento mais célebre do filme, na qual Travis olha para o espelho e diz “Você está falando comigo?” foi totalmente improvisada por De Niro. O roteiro só dizia para o personagem falar consigo próprio no espelho.

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00 tinha apenas 12 anos na época de Taxi Driver. Ela já havia trabalhado com Scorsese em Alice Não Mora Mais Aqui, mas foi neste filme que ela ganhou seu papel de destaque. As cenas como a prostituta Iris foram realizadas por sua irmã, na época com 19 anos, que serviu como dublê de corpo, e ela entrega uma Iris que tenta ser forte no submundo de Nova York ao mesmo tempo que está insegura e infeliz, sobretudo com o seu cafetão, vivido por Harvey Keitel.

Quando o público já estava vacinado com todas as provocações de Scorsese ao longo do filme, eis que surge a seqüência final que foi incrivelmente bem coreografada e montada e sem sutilezas na violência. Incômoda e realista, como aprendemos com o Scorsese que admiramos até hoje.

Não dá para deixar de reparar na inesquecível trilha sonora de Bernard Herrmann, que morreu na véspera de natal de 1975, poucas horas depois de terminar a trilha de Taxi Driver. A trilha casa muito bem com o clima boêmio e melancólico das cenas e ajuda a tornar esse clássico que completa 40 anos, absolutamente inesquecível e para sempre na nossa memória.

Nota: 10,0