As últimas semanas foram tantas bombas nos cinemas (Deuses do Egito, Cinqüenta Tons de Preto, Como Ser Solteira, Convergente, Os Dez Mandamentos) que já ficamos até vacinados, para não esperar muito do que tem pra vir. Aí, do nada, surge Zootopia, uma linda animação da Disney (sem a Pixar, mas com a cara dela), que chega aos cinemas sem uma grande campanha de marketing e com apenas uma semana de diferença para o aguardado Batman VS Superman, para nos fazer sorrir de novo. Foi um tremendo alívio.

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Zootopia conta a história da coelha Judy Hopps, filha de agricultores em uma cidade do interior que vivem de plantar e vender cenouras, mas ela tem o sonho de se tornar a 1ª policial coelha. Após um árduo treinamento, e já sendo uma policial de fato, ela se muda para uma grande metrópole chamada Zootopia e tem que lidar com os preconceitos dos grandes animais dentro da polícia e de seu chefe Bogo, que é um Touro. Paralelamente a isso ela se torna amiga de uma raposa golpista para resolver um caso na qual ela foi designada e seu emprego dependerá disso.

Nenhuma dessas informações é spoiler, essa é a história central de Zootopia, porém existem várias outras coisas a serem descobertas pelo roteiro que vai surpreendendo conforme a trama evolui. Quem não prestar atenção vai achar que é mais uma história da Disney com uma mensagem, mas Zootopia fala sobre superar os obstáculos que a vida impõe, sobre preconceito contra raças e contra a mulher, segregação, conspiração, política (sim, isso também está embutido), e até sobre meritocracia. Sem contar que ele é um “feel good movie”, na qual a pessoa assiste e sai melhor dele e não bastasse isso, o espectador sai do filme motivado a mudar o mundo. Zootopia é uma grande surpresa deste ano e merece ser descoberta pelo grande público. Em um ano em que se fala em animações como Procurando Dory, poucos tinham expectativas para essa brilhante produção, que é o melhor filme do gênero da Disney em anos.

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Uma característica das últimas animações da Disney sem a Pixar é que sempre há alguma reviravolta em um determinado ponto e o vilão não é quem parece ser. Aqui em Zootopia não é diferente: à exceção da própria protagonista Judy, que é uma graça, praticamente não há personagens exatamente bons e exatamente ruins, porém não dá para ver esses elementos como uma influência negativa aos menores. Existem alguns arcos menores dentro da história e que apresentam alguma mensagem para o público, que embora alguns são apresentados de forma rápida, jamais são jogados em tela e há sim, profundidade, o que é um grande mérito de roteiro.

E quem achar que Zootopia é uma animação que não diverte, também está enganado. Em diversos momentos há alívios cômicos, como a cena das preguiças que trabalham num órgão público, um rápido jogo de vôlei com as girafas, referência a Poderoso Chefão e o roteiro brinca com a própria Disney, com referências a Frozen, Detona Ralph e Enrolados. E o roteiro ainda brinca com o muito do mundo atual: os personagens se comunicam pelo “zoo zap” (em referência ao whatsapp), o celular da protagonista apresenta uma cenoura no lugar da maçã da Apple e o principal canal de notícias é a “ZNN”. Os animais de Zootopia também são um show a parte, apresentando características humanas, mas também mostrando características de seu animal correspondente. Judy tem características de um coelho de verdade, e o já citado touro tem a presença imponente.

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Os diretores Byron Howard (Enrolados e Bolt – O Supercão) e Rich Moore (Detona Ralph e de alguns episódios de Futurama) nos entregam uma animação que pode parecer que foi simples de ser feita, mas que foi um grande trabalho de pesquisa sobre a vida de alguns animais e um árduo trabalho de textura e concepção dos personagens, porém é justamente essa produção que aparenta ser  mais simples que a torna tão especial. O resultado beira à perfeição, mas nada que o produtor executivo John Lasseter (olha a mão da Pixar aí) não esteja acostumado.

Também há um brasileiro envolvido na produção de Zootopia, que é o animador Renato dos Anjos (Frozen e Enrolados). E não deixem de reparar na excelente trilha de Michael Giacchino (Divertida Mente e Jurassic World) e na música-tema da Shakira, Try Everything.

Zootopia é o primeiro filme da Disney em anos que não apresentou um curta-metragem no início do filme e também não há cena pós-créditos, mas quem precisa de tudo isso quando se tem um trabalho poderoso de roteiro, produção e direção?

Nota: 10,0