Sense8 é uma série de “ficção científica pós moderna” que fala sobre um grupo de 8 pessoas cujo o super poder é o de “compartilharem” suas mentes. Durante os 12 episódios da primeira temporada o público é apresentado aos personagens que compõem o grupo dos sensate, e podemos ver que cada um está num país diferente, com problemas diferentes e vivendo situações únicas.

Apesar da trama principal de Sense8 ser a conspiração em torno da ideia de existirem pessoas que podem compartilhar seus pensamento e emoções, boa parte da história inicial é focada na vida pessoal dos personagens, como se fosse um grande filme onde se conta a origem de heróis que um dia – talvez na segunda temporada – se tornaram importantes para o mundo onde vivem.

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Visto apenas como um produto de entretenimento, o seriado é espetacular. Os Bons efeitos são somados com os roteiros bem escritos, dando ao espectador um pouco mais de 10 horas de programação para assistir sem muitos receios com relação a qualidade de produção. E esses dois elementos se unem de forma harmônica com o casting do seriado.

Os atores sabem atuar perfeitamente em seus papeis, mesmo que muitas vezes eles mostrem como é preciso confirmar reconhecimento público com o uso de esteriótipos, como o caso do personagem Lito (Miguel Ángel): um mexicano pra lá de sentimental e cheio de trejeitos que muitos compatriotas devem ter achado meio exagerados.

Infelizmente no meio do processo de construção da história de Sense8, é justamente a má utilização dos personagens que acaba desarmonizando o produto final. Além do exagero na quantidade de protagonistas apresentados na primeira temporada, o uso descarado da apelação emocional como ferramenta de ligação entre o público e a trama, torna qualquer possibilidade maior de conexão inviável. São oito histórias tão profundas e cheias de momentos marcantes que o espectador não tem tempo de respirar. Ou seja, é muito drama pra uma história que deveria ter como tema central a ideia de que existem pessoas com poderes além do imaginado.

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Em vários pontos chaves do seriado, quando acreditamos que finalmente as tais “regras do jogo” serão contadas, o roteiro volta e tenta nos mostrar mais dos dilemas específicos de um dos 8 sensate. É extremamente broxante para o espectador que quer conhecer mais da trama e denuncia como os roteiristas ficaram rendidos ao fato de que precisavam “polemizar” para chamar atenção do público, da mesma forma que uma novela mexicana de baixa qualidade faz.

E aqui precisamos deixar claro duas coisas simples: 1) Não me incomoda que o seriado fale sobre questões sociais sérias (machismo cultural, homofobia, racismo, desigualdade social etc.); 2) Mesmo não me sentindo representado pelos personagens, ainda sinto empatia por suas história. O complicado é quando as questões sociais (ou a necessidade de problematiza-las) junto as histórias do personagens acaba por suplantar a trama maior do seriado e se torna o foco da coisa toda.

Enquanto o seriado explorava várias cenas sexuais (hétero e homo afetivas) sem qualquer necessidade, a trama do compartilhamento de mentes era deixada de lado, sem ser explicada de uma forma que o público pudesse entender sua complexidade, dando a entender que Sense8 quer conquistar simplesmente pela coragem de mostrar uma transsexual tendo relações com sua namorada, apelando descaradamente ao lado emocional que faz o espectador se sensibilizar pela situação do personagem.

A sensação que Sense8 transmite no final de sua primeira temporada, para o público que estava interessado na trama principal, é a de abandono. Quando a história finalmente começa a explorar todo o potencial latente e deixa de lado os dramas isolados, já é tarde demais para evoluir. Resta apenas aquela esperança de que a próxima temporada faça aquilo que a primeira não fez: mostre o quão “fodão” pode ser compartilhar mente e habilidades de 8 pessoas distintas.

Nota: 6,0