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O Oscar de 1977 foi um dos mais polêmicos, controversos e inusitados da história. Por décadas a imprensa mundial defendeu que a vitória de Rocky – Um Lutador sobre Taxi Driver foi das maiores injustiças da história da premiação. Outros dizem que foi um voto pelo coração do espírito americano. Polêmicas à parte, o filme que mais saiu vitorioso naquela festa – pelo menos em número de estatuetas – e que quase saiu com o prêmio principal da noite foi Rede de Intrigas, que ganhou 4 Oscar e ao menos 2 deles entraram para a história com: Peter Finch sendo o primeiro ator a ganhar um Oscar póstumo; e o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante dado a Beatrice Straight por uma atuação com um tem pouco mais de 5 minutos em tela.

Muito à frente do seu tempo, Rede de Intrigas falava de manipulação da mídia, quando esse assunto ainda era um grande tabu, sobretudo aqui no Brasil e justamente nos anos 70, época em que uma única emissora era a detentora de quase 100% da audiência. Portanto, este é um filme recomendado para todos os brasileiros que cresceram vendo a emissora em questão e serve para refletir sobre as informações que chegam na tela, qual o grau de interesse e o quanto pode ser manipulado e tendencioso.

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O filme traz os bastidores de uma emissora fictícia da TV americana, UBS (em uma clara referência ao canal CBS), na qual os executivos se reúnem e discutem os rumos de seu canal, onde o objetivo é a audiência e para chegar aos grandes índices, usando todos os meios possíveis – alguém mais se lembrou de Maquiavel em O Príncipe?.

Na história, o âncora Howard Beale (Peter Finch) recebe a notícia que será demitido pela baixa audiência e revela, em rede nacional, que irá se suicidar na semana seguinte. Ele é afastado do cargo, mas a emissora recebe vários pedidos dos espectadores para que ele volte e ele recebe um programa próprio, desta vez sendo um programa de auditório sensacionalista e os índices de audiência sobem de forma exponencial.

Rede de Intrigas também critica as prioridades da mídia no seu produto final com o espectador. Em uma das cenas, Diana fala sobre os índices de violência, guerra e a crise do petróleo, mas os jornais só priorizam as loucuras de Beale. E em uma determinada reunião entre os executivos, eles questionam qual notícia trará mais patrocinadores e como fazer com que o espectador fique grudado na cadeira, mostrando que a TV é um produto de entretenimento, acima de ser um meio de comunicação.

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No mesmo ano de Rede de Intrigas tivemos também o brilhante Todos os Homens do Presidente, onde era mostrado uma investigação do caso Watergate, o que torna ambos os filmes obrigatórios para quem quer entender o jornalismo norte americano por dentro. A diferença é que Todos os Homens… era um retrato investigativo de algo que poucos tinham coragem de encarar, enquanto Rede de Intrigas apresenta o jornalismo como um negócio acima de tudo. Junte esses dois filmes aos grandes Boa Noite e Boa Sorte e ao recente Spotlight e temos os melhores filmes sobre jornalismo da história.

Infelizmente Rede de Intrigas não foi o sucesso de Rocky – Um Lutador, nem se tornou cultuado como Taxi Driver, mas merece ser descoberto pelo público. O filme se torna assustador quando percebemos que foi filmado há 40 anos e anteviu muita coisa para o mundo de hoje.

Nota: 10,0

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