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Num dos momentos mais icônicos de Titanic (certamente o meu favorito), um violinista, ao se dar conta do destino iminente do navio, resolve começar a tocar uma música. Seus companheiros, que já estavam prontos para tentar se salvar, voltam atrás e acompanham o colega de trabalho, executando a bela Nearer My God to Thee (infelizmente não achei a cena original, mas tem uma montagem bem parecida aqui).

Na história, o violinista resolveu tocar uma última canção simplesmente porque, se ele ia morrer, que fosse de uma forma memorável. Para o espectador, serve para mostrar melancolicamente a dimensão da tragédia e como várias pessoas foram obrigadas a aceitar o próprio fim, além de representar um elemento tradicional da linguagem cinematográfica: momentos memoráveis ou épicos dificilmente podem ser criados sem música.

Quando uma boa música se alia a uma boa direção, cenas que passariam despercebidas, seriam banais ou “só mais uma” em um filme se transformam em um momento grandioso, que o espectador dificilmente esquece quando sai do cinema. Mais do que isso, esse artifício também pode ajudar a aproximar o público do filme, graças ao impacto que causa. Um bom exemplo desse último caso é Jurassic Park. Steven Spielberg, no ápice da sua carreira, tem uma direção magistral aqui, mas existe uma cena específica, logo no começo do longa, que é particularmente espetacular, pois seu objetivo, utilizando a trilha de John Williams, é apresentar seu trunfo para o filme (os dinossauros) e conquistar qualquer um que ainda não tenha sido conquistado por aquela história.

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A cena em questão é a apresentação do parque, onde os protagonistas AlanEllie e Ian (interpretados por Sam Neill, Laura Dern e Jeff Goldblum, respectivamente) chegam à ilha onde John Hammond recriou os dinossauros. Tanto o espectador quanto os personagens estão com a expectativa alta, esperando para verem os bichos direito (até aquele momento, só haviam mostrado um velociraptor nas sombras). Spielberg mantém o foco nos personagens o tempo todo, até Alan ficar paralisado e alertar Ellie, distraída com um mapa, sobre o que está na frente deles.

E então, o diretor nos revela um gigantesco brontossauro e com ele, entra o inesquecível tema do filme, ainda bem devagar. A cena vai seguindo, revela que a ilha tem um T-Rex, Alan representa o público e fica desnorteado, até que finalmente, Hammond vai para o primeiro plano e diz “Bem-vindos… ao Jurassic Park”. O tema de Williams então enche as caixas de som em toda a sua glória, Spielberg mostra uma paisagem repleta de dinossauros e a partir dali, todo mundo está completamente rendido, do lado de lá e de cá da telona.

Da mesma escola de Spielberg, e utilizando-se do mesmo compositor, vem George Lucas, que mesmo nos piores filmes da saga Star Wars, sempre soube perfeitamente onde usar a trilha sonora para tornar qualquer cena grandiosa (na trilogia de prequels, inclusive, elas chegam a parecerem melhores do que realmente são). É assim no Episódio I, com a revelação completa de Darth Maul e seu sabre duplo e no Episódio III (o duelo entre Anakin e Obi-Wan e o expurgo dos Jedis). Aliás, mesmo nos filmes que não são comandados por ele, a regra da franquia se mantém, como em O Despertar da Força, na fatídica cena da morte de “você-sabe-quem” e quando o verdadeiro portador da Força se revela (se você ainda não sabe dessas coisas, é porque não se importa o suficiente, mas vou respeitar a regra dos spoilers aqui).

E como eu disse no começo do texto, às vezes cenas banais ou até bobas também se tornam sensacionais graças à música. É o caso de Forrest Gump, um filme em que o protagonista se envolve com vários momentos marcantes da cultura pop, mas cuja cena mais marcante acabou sendo a corrida inabalável de sua versão mais jovem, se livrando dos equipamentos metálicos que o ajudavam a andar, ao som de uma música épica e edificante, dando o tom perfeito de superação que a cena exigia.

Mas tratando-se de cenas banais que são transformadas, creio que música nenhuma supere o poder de Also Sprach Zarathustra, poema sinfônico que é um clássico absoluto de Richard Strauss, cujo uso mais conhecido no cinema está em 2001 – Uma Odisseia no Espaço. A música é o tema principal do filme, mas seu melhor uso nele está na cena em que o espectador vê (e essa é uma descrição crua e sem qualquer contexto) um macaco batendo em ossos. Mesmo contextualizada (na verdade, é o momento em que o macaco entende que pode usar pedaços de certas coisas tanto como ferramenta quanto como arma), ainda é uma cena que facilmente passaria batida nas mãos de um diretor qualquer.

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Porém, é de Stanley Kubrick que estamos falando. E sob a direção dele, a cena dessa descoberta dos nossos antepassados tornou-se uma das grandes cenas da história do cinema. Utilizando-se do poema de Strauss, que evoca o sentimento de descoberta de algo incrível da primeira a última nota, Kubrick deixa claro, sem diálogos, narração ou nada do tipo, que aquela ação aparentemente simples do macaco foi um momento que definiu toda a história da humanidade (e quando pensamos que HAL, o computador de bordo que conhecemos no segundo ato do filme, criado por humanos, começa como uma ferramenta de navegação e termina como uma arma contra os astronautas, isso fica ainda mais evidente).

Bem, ainda poderia citar outros momentos, como o voo de Woody e Buzz em Toy Story, a apresentação da Sociedade do Anel ao espectador ou o grito de liberdade de William Wallace em Coração Valente, mas acho que vou deixar esses e outros momentos para outra hora, porque já deu pra ver que esse assunto é outro que rende muito. E olha que nem falei de filmes de super-heróis, já que eles fazem parte de outro texto. Mas digam aí, qual cena que é inesquecível para vocês graças ao uso da música no momento perfeito?

Falem nos comentários para ajudar em mais colunas sobre o assunto que eu vou ficando por aqui. Até semana que vem!

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