Deixando um pouco de lado a parte fofinha da fotografia no cinema, hoje vou falar um pouco sobre como os diretores criam uma atmosfera perturbadora em seus filmes para abordar o tema drogas. Para isso escolhi 3 filmes que carregam esse impacto visual: Trainspotting (1996), Requiem Para Um Sonho (2000) e Enter the Void (2009).

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Vamos começar por Trainspotting: filme britânico de 1996, do gênero drama, dirigido por Danny Boyle e com roteiro baseado em livro homônimo de Irvine Welsh. Sem falsos moralismo, podemos dizer Trainspotting é a obra-prima de uma geração, que resume todo um cenário de adolescência desesperançada. A trama fala sobre um grupo de jovens escoceses na metade da década de 90, que mergulham de cabeça no mundo das drogas como forma de fuga da monotonia de suas vidas. A desculpa maior é por considerarem seu país a escória da humanidade. A trilha sonora é hipnótica e arrepiante, compondo as cenas magistralmente.

O filme é tão visceral na sua forma de mostrar os efeitos das drogas nos personagens, que causa até um desconforto. Dentre várias cenas impactantes, sem dúvida a famosa cena do “bebê” é a mais comentada nos blogs sobre cinema. O diretor se utiliza muito do surrealismo para contar ao telespectador os efeitos causados pelas drogas. Personagem mergulhando num chão de concreto que afunda; degradação humana, sujeira e angústia. A fotografia é fria, suja e escura. No segundo ato do filme, somos levados junto com a abstinência do protagonista, onde ele se isola em um quarto e lá acontece toda confusão mental e psicológica possível. Um trabalho de imagem e fotografia magistral que transmite o que se propõe transmitir. Sem meias palavras… Transpotting é foda!

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E falando em filmes fodas, já podemos puxar o próximo do tema proposta, que também é meu favorito: Réquiem para um sonho, produção norte americana de 2000, dirigida por Darren Aronofsky (Cisne Negro).  O longa é uma viagem só de ida para o inferno que exemplifica bem a degradação física e moral de quem sofre os efeitos das drogas. A historia mostra a vida de 3 jovens viciados (em cocaína e heroína) e a mãe de um deles, que se torna dependente de anfetamina. Cada um dos personagens tem um drama pessoal e faz o uso dos entorpecentes como válvula de escape da realidade em que vive. Quando acontece uma guerra nas ruas com os traficantes, as drogas somem das ruas, deixando os três alucinados. A abstinência, faz com que eles passem a ter ideias desesperadoras para conseguirem de alguma forma sustentar o vicio.

Talvez as cenas mais chocantes de Réquiem para um sonho sejam aquelas que exploram a mãe de Harry (Jared Leto). Sarah Goldfarp (Ellen Burstyn), é uma viúva solitária que faz vista grossa para o vicio do filho; após receber uma ligação, dizendo que ela irá participar de um programa de televisão, passa a consumir compulsivamente pílulas para emagrecer num intuito de entrar em um vestido vermelho, o mesmo que ela utilizou na formatura do filho. Ingerindo cada vez mais pílulas, a mulher passa a ter alucinações cada vez mais assombrosas que a conduzem ao limiar de sua insanidade mental. A estética do filme é fantástica, com uma edição extremamente picotada e frenética. O diretor aperfeiçoou a técnica de “fast cutting”, que consiste em exibir imagens muito rápidas, criando um estilo próprio que ele batizou de “hip hop montage”. Essa técnica cai como uma luva, na hora de transmitir os delírios vividos pelos personagens sob efeito das drogas. E se já não fosse suficiente, Aronofsky, divide a tela em duas, faz cortes secos, mistura um emaranhado de imagens e trabalha com uma câmera acoplada no corpo dos atores e lentes grande angulares, para passar uma sensação de isolamento vivido pelos protagonistas.

Réquiem para um sonho, não é apenas um filme de drogas, é uma experiência sensorial completa. É um filme que incomoda porque vai justamente na contramão de outros filmes do tema, sem deixar espaço para redenção dos personagens, mostrando que o destino de cada um é trágico, e revirando a emoção do telespectador.

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Sobre o filme Enter the Void, de Gaspar Noé,  que foi traduzido no Brasil para “Viagem Alucinante” aí a coisa fica séria… rs

Em relação a Gaspar Noé, ou se ama ou odeia; não existe meio-termo na sua filmografia. Noé ficou nas bocas do mundo com filme Irreversível (2002) por acender uma discussão no meio da comunidade cinéfila devido ao seu conteúdo e modelo narrativo. Um filme com um enorme teor de violência gráfica e sexual, entre os quais está uma repugnante, detalhada e longa sequência de estupro de 11 minutos de duração. Em Enter the Void, o diretor, também faz um trabalho de grande experiência sensorial cinematográfica.

O primeiro ato do filme é contado do modo de vista do personagem, com a técnica de câmara ao estilo God’s Eye (plano vista do objeto). Ou seja o telespectador participa da degradação sendo colocado na visão do personagem. Gaspar Noé concretiza uma viagem metafísica e explora a inexplorável vida após morte de uma forma dolorosa, deprimente e também decadente, citando com força o Livro Tibetano dos Mortos e sublinhando conforme a história do seu protagonista, Óscar (Nathaniel Brow), um jovem traficante de drogas que vive em Tóquio que fica interessado no conteúdo do dito livro. É uma experiência que não deixará ninguém indiferente, sendo que, na minha humilde opinião, a primeira parte narrada na primeira pessoa é a parte mais inteligente e interessante de todo o filme.

Um dos feitos bem conseguidos é quando o diretor aproveita esse conceito narrativo para garantir a falada viagem alucinante que havia prometido aos espectadores, usando o efeito fictício de drogas para dar um “show” visual. Tem muitas imagens que eu me perguntei como foram gravadas. A câmera rodopia, entra por janelas sai de ponta a cabeça. Em uma explosão de cores fortes, neon, leva mesmo o público à loucura. Todavia esta Viagem Alucinante, que as distribuidoras portuguesas venderam e bem, é uma “trip” a uma Tóquio sob o efeito de alucinogênios, uma profunda analise às crenças mortuárias que definem a vida e a julgam inconscientemente.