Não é uma tarefa difícil identificar um filme dos irmãos Coen. Histórias aparentemente simples, personagens desajustados e o bom “nada é o que parece ser” em roteiros que só poderiam vir da cabeça desses dois irmãos. Por outro lado, identificar um filmes dos Coen também não é uma tarefa fácil, afinal de contas eles não têm exatamente um estilo definido, já se aventuraram em vários gêneros e é justamente esse lado eclético que os torna únicos.

Ethan e Joel Coen estão no mundo dos cinemas desde os anos 80 com Gosto de Sangue e Arizona Nunca Mais e sempre tiveram seus filmes encarados como produções cult ou como um cinema de nicho. Eles só foram reconhecidos pela Academia em 2008 com o grande Onde os Fracos Não Têm Vez, mas entre várias obras-primas, uma comédia mediana (O Amor Custa Caro) e outra de gosto duvidoso (Matadores de Velhinha) não é exagero nenhum dizer que Fargo é o melhor filme já feito pelos Coen.

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Fargo é uma pequena preciosidade do cinema, ganhou 2 Oscar, o de Roteiro Original, escrito pelos Coen, e o de Melhor Atriz para Frances McDormand. O prêmio de Roteiro é incontestável, mas o de atriz é discutível. Não que Frances esteja ruim no papel, muito pelo contrário, ela rouba a cena como uma policial atrapalhada, mas ela não é a figura principal de Fargo. E no mesmo ano a cantora Courtney Love foi absurdamente ignorada por seu papel hipnotizante em O Povo Contra Larry Flynt.

Foi a partir de Fargo que os irmãos Coen se tornaram conhecidos pelo grande público e as indicações ao Oscar de 1997 deram um novo fôlego à carreira deles. O filme ainda gerou uma excelente série de TV homônima, que já tem 2 temporadas completas, está colecionando prêmios, é tão boa quanto o filme que a inspirou e tem o formato de antologia, ou seja, cada temporada independe da outra, como é o caso de American Horror Story e True Detective.

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Fargo se passa em 1987 na cidade homônima de Fargo, Dakota do Norte, e conta a história de Jerry (William H. Macy), um gerente de uma revendedora de veículos que se vê em uma situação financeira delicada, chegando ao ponto de arma o sequestro da própria esposa com dois criminosos. Jerry pede 1 milhão de dólares e ficaria com o resto do que fosse dividido com os sequestradores, mas tudo dá errado. Uma série de assassinatos ocorre no meio do caminho e uma policial grávida e atrapalhada, Marge (Frances McDormand) tenta resolver o caso.

Nos créditos iniciais do filme, há um texto dizendo que tudo é uma história verídica, o que depois foi confirmado como uma brincadeira dos irmãos Coen, e não era muito difícil de perceber isso pelos absurdos do roteiro que vai provocando o espectador a cada tomada. Em Fargo qualquer um pode ser suspeito e, como um legítimo filme dos irmãos, nada é o que parece ser.

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Aqui no Brasil, o filme recebeu o péssimo subtítulo de “Uma Comédia de Erros”, que além de ser totalmente desnecessário, ainda deu uma visão errada para o público em geral e os mais desavisados acreditaram que se tratava de uma daquelas comédias televisivas.

A fotografia de Fargo é quase um personagem do filme: fria como os atores, obscura nos momentos tensos e límpida na maior parte do tempo. Para ajudar ainda mais, os Coen extraem o melhor de seus atores e unem roteiro, técnicas e interpretações numa produção completa. Frances McDormand é um grande alívio cômico como uma xerife insegura da cidade pacata, mas que se vê no meio do fogo cruzado. Steve Buscemi faz um criminoso que muito se assemelha com o cinema de Tarantino em Pulp Fiction e Cães de Aluguel e está mais engraçado do que perigoso.  Porém o melhor personagem de Fargo é o de William H. Macy, que se mostra aparentemente inofensivo, um trabalhador exemplar e um marido atencioso, conseguindo enganar a todos e se torna acima de qualquer suspeita. O Jerry de William H. Macy é brilhante em todos os pontos, conseguindo transmitir isso apenas no olhar cínico e manipulador e que merecia todos os prêmios por seu papel.

Há várias maneiras de se ver Fargo: como uma história policial, uma trajetória de crime ou uma comédia de humor negro. Seja qual for o ponto de vista, Fargo é uma obra-prima incontestável e em 2016 completa 20 anos de seu lançamento e com a série, pode atingir a nova geração.

Nota: 10,0