Ariano Suassuna dizia que a mentir era uma das características humanas que mais lhe chamava a atenção. Não a mentira ruim, que visa prejudicar, mas a mentira dos doidos, poetas e contadores de histórias. A visão estético-literária de Suassuna era a de que a Literatura era uma mentira dita como verdade, a arte como forma de recriar o real. Mas, falar sobre Ariano, mentira e arte num mesmo texto traz à memória do leitor O Auto da Compadecida, dramaturgia escrita em três atos em 1955, encenada pela primeira vez em 1956 e que chegou às telas em 2000 sob direção de Guel Arraes.

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Certamente o leitor lembrará as artimanhas cômicas de Chicó (Selton Melo) e João Grilo (Matheus Nachtergaele) e é justamente sobre eles que versa este texto (aliás, esta matéria contém leves spoileres sobre o filme, nada que estragará a tua experiência caso não tenha visto). Mas antes, cabe relembrar duas partes que compõem toda criação artística. A obra literária possui o lado da ficção, da elaboração imaginária, do figurativo e do metafórico, a mentira produtiva de enredos; é o lado Chicó da obra. Mas possui também a parte cerebral, que processa e articula aquelas ideias, possui a técnica, o laboral, a astúcia argumentativa, o lado João Grilo.

Edição do livro do Auto da Compadecida
A mentira é o combustível do Auto da Compadecida. São as trapaças de João Grilo e os “causos” de Chicó que geram os episódios a que assistimos e nos fazem compreender o drama a que os dois estão submetidos na trama: o desafio diário da sobrevivência. Sobrevivem pela ficção, por meio da dissertação ilustrada no riso das histórias que inventam. O filme nos convida a presenciar como aqueles dois personagens vão resolver os próprios problemas que eles mesmos criaram.

Chegamos ao Padeiro e à Mulher do Padeiro (na peça ela não tem nome, no filme é a Denise Fraga como Dora) com a barganha do gato que “descome” dinheiro. Em seguida, a invenção de João Grilo com o testamento da cachorra e a necessidade de uma missa em latim nos leva aos personagens do Clero. Da igreja, as mentiras de João e Chicó levam ao Major Antônio Moraes. Do Major, conhecemos a filha, por quem Chicó se apaixona e mais uma vez João mente, agora, para os dois valentões da cidade a fim de tornar Chicó o herói eleito da moça. Finalmente as invenções da dupla culminam na cena magistral da gaita que ressuscita os mortos e a apresentação de mais dois personagens: Severino de Aracaju (Marco Nanini) e seu cangaceiro fiel.

Temos então o desenvolvimento de todo enredo sendo mediado pelas mentiras dos protagonistas. Uma cena encaixa-se à outra à medida que as histórias vão sendo inventadas na busca pela sobrevivência. E eles vencem. João e Chicó vencem os patrões exploradores, vencem os dois maiores valentões da vila, vencem a fome, vencem os cangaceiros, vencem até o Diabo.

Auto da Compadecida

Em termos literários, João e Chicó são dois autores. Produzem uma infinidade de contos, crônicas e quem esqueceria o poema de Chicó sobre a Morte?

Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.

Quem esqueceria o poema de João Grilo pedindo a intervenção de Nossa Senhora?

“Valha-me Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré! A vaca mansa dá leite, a braba dá quando quer. A mansa dá sossegada, a braba levanta o pé. Já fui barco, fui navio, mas hoje sou escaler. Já fui menino, fui homem, só me falta ser mulher. Valha-me. Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré”

Por amor à arte de mentir, João Grilo e Chicó constroem arte no maior alto grau que essa expressão pode ter e para sempre estarão no nosso imaginário literário e cinematográfico

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