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A animação Snoopy & Charlie Brown: Peanuts trouxe às telonas do cinema uma compilação dos episódios mais característicos dos mais de 60 anos de tirinhas desenhadas e roteirizadas por Charles M. Schulz. As escolhas do diretor do filme, Steve Martino, foram precisas. Agradou ao público leitor e nostálgico das tiras e encantou por mais 60 anos as crianças, que tiveram encanto imediato principalmente nas cenas em que o Snoopy aparece.

Desejamos aqui averiguar quem é esse personagem que encanta tantas gerações de leitores, mas Charlie Brown irá sobreviver a mais essa geração? À geração de crianças entretidas com internet, tablets e jogos ultra modernos? Não tenha dúvidas! Até o final do texto, compreenderemos que poder possui esse herói desajustado ao mundo moderno.

Charles Schulz em 1956

Antes de chegarmos ao heroísmo propriamente dito, faz-se necessária uma revisão de certos conceitos básicos de construção ficcional. Vejamos…

O Enredo é o espaço/tempo no qual alguém faz alguma coisa. Tradicionalmente chamamos “Herói” àquele alguém e assistimos ao seu discurso, às suas ações ou à falta delas durante o evento da obra. Northrop Frye em “Anatomia da Crítica” diz que as obras de ficção podem ser estudadas pela força de ação de seus heróis e nos mostra os principais modelos destes exemplares. Podemos condensá-los em três tipos:

  • Herói Mítico: superior aos homens e ao seu meio, tem contato com deuses. São os heróis das epopeias de Homero, é o caso também do arqueiro enfo Legolas em Senhor dos Anéis, por exemplo.
  • Herói Romanesco: abaixo dos deuses, mas capaz de proezas acima dos humanos comuns. Esse herói, apesar de identificado com um ser humano, é capaz de aventuras maravilhosas e fantásticas, pois são dotados de habilidades especiais. Note as aventuras de Indiana Jones nos filmes do Spielberg e o Luke de Star Wars.
  • Herói Problemático: são as figuras comuns, pessoas normais que constroem-se ou deterioram-se ao longo do enredo. Tais personagens sofrem atribulações cotidianas em busca de resolução de conflitos. Vide Capitão Nascimento em Tropa de Elite e Chris Gardner (Will Smith) de À Procura da Felicidade.

Evidentemente não é possível situar as aventuras de Charlie Brown nas duas primeiras categorias. Mas, será possível situá-lo na última? Seria Charlie um modelo de herói problemático? Passemos a estudá-lo a fim de compreender seu enredo.

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Tal como ocorre na maioria das obras cujos heróis são testados por circunstâncias adversas, o filme inicia com os desastres mais comuns ao Charlie Brown: é a frustação de não conseguir empinar uma pipa, o drama de nunca ganhar uma partida de baseball e a timidez absoluta diante da menina que conquista seu coração.

Charlie Brown vive a gangorra das emoções. De um lado a adversidade, de outro um plano para superá-la. Isso o diferencia substancialmente dos Heróis Problemáticos porque ao contrário deles, Charlie nunca enxerga o muro limite das tentativas e jamais entrega-se ao desânimo e à desistência, aspectos comuns àqueles personagens problemáticos. Aliás, são normalmente abatimento e tristeza as emoções que levam os Heróis Problemáticos a agir de tal forma a mudar a situação.

O Herói de Peanuts não conhece a desesperança. Ele aceita a dor e a felicidade na mesma medida e intensidade. Ambas são molas que impulsionam suas próximas experiências. Se é uma pipa a que ele não consegue levantar voo no início do filme é outra pipa que o leva às alturas com o encontro com a amada no clímax da película. A gangorra desce, mas também sobe.

Já foi dito em algum lugar que o poder de Charlie é a persistência. E tal observação não podia ter sido mais acertada e fica muito clara no filme. Eu acrescentaria mais: Charlie Brown é herói porque num mundo baseado em falsas aparências, ele tem coragem de dizer a verdade na frente de todos e aguentar as consequências. É herói por proteger a irmã ainda que isso lhe custe conquistar a menininha dos seus sonhos. Talvez ele não seja especialista em esportes porque dedique seu tempo a ser o Herói da alteridade: a capacidade de colocar-se no lugar do outro.

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É por isso que ele sobreviverá às adversidades de colocar-se no mundo fora de seu tempo.  Charlie Brown veio do século passado para ficar. E conviverá com o público de hoje justamente por ser um herói diferente dos demais: não voa, mas imagina; não salva o planeta, mas conserta o mundo dos amigos e tem por poder a vontade de Ser.

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