Guimarães Rosa tinha razão quando poetizou que “o silêncio é a gente demais, mesmo”. Em tempos tão barulhentos em que ouvimos tantas palavras vazias de pessoas que “falam demais por não ter nada a dizer”, convido-te a prestigiar e a relembrar dois personagens que já são simbólicos, embora jovens, nas telas dos cinemas. Façamos hoje uma ode aos discursos silenciosos de Groot e ao de Wall-e.

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A linguagem é talvez a maior conquista dos seres humanos. É por meio dela que expressamos as mais diversas sensações e é um fator determinante no processo evolutivo da espécie. A literatura é uma invenção humana que utiliza as forças da linguagem existente para criar uma linguagem que não existia, mas que passa a ser lida, ouvida e interpretada, ainda que pura ficção. A imaginação é o parque de diversões da linguagem.

E o silêncio? Uma das mais belas passagens de Clarice Lispector diz que “a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio”.  Se a linguagem lê a realidade, o silêncio a interpreta. Afinal, é o silêncio um intervalo de linguagem.  O silêncio não é uma parede que encerra o discurso. Ele é a janela que conecta dois cômodos em que habitam vozes diferentes. O que ocorre entre uma fala e outra é o silêncio. A janela/silêncio está entre essas duas falas e significa contemplação, transição e conexão à nova ideia que surgirá.

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No filme Wall-e (2008) temos um robô como protagonista. Já do longa-metragem Guardiões da Galáxia (2014) trago à discussão o personagem Groot, uma árvore antropomórfica. Relacionam-se pelo fato de que eles possuem como linguagem verbal apenas a capacidade de pronunciar o próprio nome. Contudo, são absolutamente capazes de linguagem não-verbal, como por exemplo a linguagem do corpo, das expressões.

As expressões faciais do Wall-e são uma obra de arte à parte. O personagem “fala” com o olhar a todo instante. É possível ler em seus olhos todas as emoções e pensamentos que ele não pode colocar em linguagem verbal.  No caso do Groot, tem-se a colaboração de outro personagem – Rocky – que “traduz” a linguagem do Groot.  Toda e qualquer forma de pensamento do Groot é verbalizada em “Eu sou Groot”. Após dizer isso, Rocky faz a legenda para os outros personagens. Isso no começo do filme, porque do segundo para o terceiro ato, tanto o espectador quando os personagens já estão habituados ao “silêncio” de Groot e, por familiaridade simbólica, já são capazes de compreender a ausência de discurso verbal.

Mais da metade do filme Wall-e é executada sem voz. Assistimos a um simpático robozinho em suas tarefas diárias de limpar o planeta, o qual está abandonado e destruído. Como pronunciar-se diante do caos? Wall-e não diz uma única palavra e ainda sim é capaz de fazer a todos sentirem carinho por uma barata.

A cena mais magistral de Groot é toda formulada simplesmente na troca de um pronome por outro. Se durante todo filme ele se “silenciou” para com “Eu sou Groot”, no fim, ele tem uma atitude que um dicionário inteiro não seria capaz de definir em termos de sacrifício. Groot troca “eu” por “nós” e hipnotiza o espectador com uma linguagem que só poderia ser traduzida em silêncio.

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A representação humana que mais fascina ao robozinho Wall-e é o toque de mãos. Podemos dizer que sua trajetória no filme é uma busca por dar as mãos. Esse filme lembra trecho de um poema de Drummond que convida “Vamos de mãos dadas?” E o que é dar as mãos se não ouvir o silêncio do tato?

Um robô e uma árvore nos ensinando sobre a profundidade das palavras. Um robô e uma árvore sacrificando-se silenciosamente. Um robô e uma árvore que compreendem que as palavras mais significativas são as menores, porque são acompanhadas de gestos grandiosos.