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Um bom filme, tem como característica nos entregar também, uma boa fotografia. Já vimos que a fotografia muda o sentido da cena, conversa com o telespectador, transmite sensações. Hoje vamos falar sobre a fotografia fria.

Quando se trabalha com esse tipo de fotografia no cinema, a principal intenção é passar o “realismo” do cotidiano. Filmes sobre drogas e dramas familiares baseados em fatos reais, utilizam essa técnica pra contar uma história de forma que mantenha o espectador inconscientemente preso, ou seja, prestando mais atenção.

21-gramas

Um dos cineastas que sabe utilizar essa técnica com maestria é Iñárritu, ganhador do Oscar de melhor filme, consecutivos, com Birdman e O Regresso. Basta assistir qualquer obra do Iñárritu para notar um certo desconforto com o realismo que ele nos propõe.

A trilogia Amores Brutos, 21 Gramas e Babel, convidam o espectador a mergulhar na pobreza e degradação humana, mostrando como o diretor não se preocupa em entregar beleza nas imagens, ele constrói através de elementos de cena simples e cores acinzentadas sensações de sofrimento e desespero dos personagens. Nesses 3 filmes, a narrativa construída é diferente: cada filme mostra 3 história que, aparentemente, não tem ligação alguma, mas  acabam se unindo através de um acontecimento que é o tema central do filme.

Biutiful-movie

Seguindo esse mesmo ritmo de realidade temos também o filme Biutiful. O drama realista, protagonizado por Javier Bardem é um soco na boca do estômago. Poucas produções conseguem passar essa sensação de dor para o espectador. Com uma abertura misteriosa e propositalmente descuidada, o longa vai contando a história de Uxbal, um cara cheio de problemas ao longo da vida, que culminam com a descoberta de que sua morte (devido a um câncer na próstata) é iminente.

Já escrevi uma matéria sobre o filme Birdman e como o diretor utilizou as cores para mostrar o sentimento do personagem, mas onde Iñárritu deixa claro seu estilo é sem dúvida em O Regresso. Ele teve a sensibilidade de impor que o próprio cenário gélido das gravações se tornasse um personagem, numa contextualização digna de romances russos clássico. O Regresso é um filme denso, que respira através de árvores e folhas numa referência quase religiosa no universo da obra, e também de longos planos-sequências que dão ritmo intenso às cenas.

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Emmanuel “Chivo” Lubezki, diretor de fotografia preferido de Iñárritu, usou em todos os filmes somente lentes angulares de 12mm a 21mm. Além das lentes, a luz natural dos locais de gravação foram o outro um recurso exclusivo, o que conseguiu ampliar toda realidade e frieza presente em cada uma das produções. Segundo Emmanuel, a ideia de usar essas lentes e partir para o processo digital, era para causar uma maior imersão, deixando tudo mais presente, sem nenhuma textura na imagem. Podemos até perceber a distorção da lente em muitas sequencias, principalmente nos closes dos atores, onde a câmera está tão próxima que a própria respiração do personagem é perceptível na lente, ou nas cenas dentro do bosque, onde a distorção é notada nas árvores trazendo uma mistura de fantasia e realidade.

Iñárritu consegue criar uma identidade própria em seus filmes fazendo jus a todos os Oscars que ganhou. Porém agora é hora de olhar para as próximas postagens, e para isso preciso que vocês me digam qual outro diretor, filme e tipo de fotografia gostariam de ver aqui na coluna. Lembrando sempre que o nosso foco é a fotografia no cinema 😉

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