Laranja Mecânica é de longe a obra mais controversa do cineasta Stanley Kubrick. O filme ocupa, ao mesmo tempo, as funções de conto distópico de ficção científica, visão pessimista do futuro, história de um delinquente e retrato da manipulação governamental. Porém Laranja Mecânica é também uma escola de como se fazer cinema, onde espectador é jogado numa grande viagem por músicas e imagens, enquanto durante as mais de duas horas de filme, sente-se como se recebendo um soco no estômago a cada tomada. 

Antes de 1971, Kubrick havia incendiado a Guerra Fria com o brilhante Doutor Fantástico e chacoalhando a moral familiar com o provocante Lolita, mas nada se compara ao resultado do trabalho do cineasta em Laranja Mecânica. Na época do lançamento ele foi bem de bilheteria, mas o diretor mandou retirar todas as cópias dos cinemas ingleses por causa das críticas negativas. O filme havia sido acusado de usar a violência como forma de apelação.  Nem o Brasil fugiu da polêmica, quando o filme estreou era o auge da Ditadura Militar e tudo tinha que passar pela censura. Logicamente o filme foi proibido por aqui e só chegou aos nossos cinemas em 1978, ainda assim foi exibido com tarjas pretas cobrindo os pelos pubianos.

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Kubrick faz de Laranja Mecânica uma grande aula de como fazer um filme em 3 atos: O primeiro, com o Alex delinquente; o segundo, com a prisão e tratamento; e o terceiro, com o Alex “curado”. A história toda do filme gira entorno do personagem Alex De Large (MalcomMcDowell) e seus “Droogs” que saem às ruas de noite para praticar violência e estupro. Tudo “para se divertir”. Alex sente prazer com tudo isso, além de ter uma forte ligação com pornografia e Beethoven.

Logo no início do filme, a gang de Alex espancam um morador de rua e se envolvem em uma briga no teatro, mas não é nada para o que vem a seguir. Em uma noite indo ao interior invadem a casa de um escritor, estupram a esposa dele ao som de Singin’ in the Rain. Toda a sequência de violência na casa do escritos é uma das mais marcantes na história do cinema. Ela é praticamente sem cortes, com Alex dançando com tanta leveza que, quando a violência vem, se torna chocante. Logo quando o grupo despe a esposa, a cena é cortada para a seguinte. Era o cinema de autor dos anos 70, ou seja, não precisa mostrar demais para chocar a plateia. Alex é preso na mesma noite e termina de forma inesperada a sequencia, porque o público, apesar de chocado, ainda o vê como um protagonista incorrigível.

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Absurdamente, o filme não levou nada no Oscar em 1972 e está na lista das maiores injustiças da Academia. Laranja Mecânica foi indicado a Melhor Filme, Direção, Roteiro Adaptado e Edição. O maior absurdo aqui fica na ausência de Malcolm McDowell para Melhor Ator. O próprio Kubrick disse que, sem Malcolm, provavelmente não conseguiria realizar o filme com o mesmo sucesso. Em 2009, Malcolm McDowell disse em uma entrevista que “Acho que seria impossível você produzir esse roteiro em um estúdio e lançá-lo hoje”. 

Kubrick era perfeccionista ao extremo e sem sutilezas ao tratar da natureza humana. Laranja Mecânica mostra tantos aspectos da natureza humana que se torna um ícone de valor que vai além da arte.

Nota: 10,0

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