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Truman é, no cinema, a palavra definitiva sobre amizade. Sim, é desta maneira audaciosa que senti vontade de defini-lo ao sair da sala. O filme estreou dia 14 de abril no Brasil, conta com a direção de Cesc Gay e Ricardo Darín como protagonista. Se você gosta de cinema argentino provavelmente já viu o Darín em cena, ele tem mais de 80 atuações no currículo. Um grande sucesso dele foi “O Segredo dos Teus Olhos“.

O filme se pauta muito no roteiro e na construção do personagem. Alguns, que não estão acostumados com esse tipo de cinema, podem estranhar. Mas peço ao novos cinéfilos que estejam abertos às possibilidades, pois a história aqui é muito boa e uma ótima pedida para começar no cinema argentino (com cara de cinema europeu – vale a lembrança que o filme tem coprodução espanhola).

Truman conta a relação entre dois amigos. Julián (Darín) e Tomás (Javier Cámara, outro baita ator, com mais de 50 atuações). Tomás mora no Canadá e viaja até a Espanha para encontrar o amigo. A viagem é motivada pela doença de Julián. Este está com um câncer terminal.

Truman

“Mais uma história que usa o câncer para fazer chorar?” Sim e não. De fato o longa tem uma premissa pesada, a eminente morte do protagonista, mas esse é o grande charme aqui: nunca o roteiro envereda para o melodrama. O objetivo não é ver a degradação física dele. O objetivo é construir/desconstruir/reconstruir Julián.

O personagem não nos é apresentado por completo. Vamos tendo informações aos poucos – inclusive perto do final ainda estamos sendo apresentados. A partir da doença e das consequências dela vemos alguns caracteres desmontados. Com os diversos encontros, notadamente com Tomás, um novo-velho Julián brota em tela. Mas tudo feito de forma orgânica e com um traçado que flui muito bem na narrativa. É quase uma jornada do anti-herói.

E “anti” é pertinente, pois Julián não é um protagonista que você vai simpatizar (e você VAI simpatizar) pelo acertos ou por ele ter um caráter irrepreensível. Ele é falho. Sínico. Relaciona-se com a esposa de um amigo. É egoísta. E mais alguns “defeitos” que você pode apreender dele. Tomás é o oposto, pero no mucho… é verdade. Mas sem dúvida ele é muito mais voltado para uma retidão de caráter e como Julián mesmo o define: “é um amigo que não cobra nada em troca”. Enquanto Julían também tem qualidades, algumas nomináveis e outras subentendidas. Tudo isso torna a jornada de ambos algo humano e factível para quem assiste.  Há um abraço de Julián em um outro personagem que é uma das coisas mais verdadeiras que eu já vi.

Truman

Para que serve um filme? Entreter? Fazer arte? Bem, de forma alguma essa respostas estão erradas. Mas um filme está ali para contar uma história. Todos os elementos tem que confluir para que aquela história seja contada da melhor maneira possível e que ela seja a protagonista daquele evento (a tua ida ao cinema).

Truman tem uma direção “limpa”. A câmera evidencia o que é necessário para entendermos o que se passa ali. Ela não quer gritar mais que o filme. O genial Inarritu (diretor de O Regresso) não assinaria a direção deste longa. O máximo que ocorre são rimas visuais e enquadramentos que dividem bem o espaço da tela. O ritmo é lento e acelerado nos momentos devidos. Nós somos fisgados na primeira cena e só saímos nos créditos finais (mas definitivamente o filme não sai de dentro da nossa cabeça). Eles estarem sempre em movimento, além de ter um significado para a história, torna a coisa toda fluida dando uma sensação de evolução. A fotografia não será indicada ao Oscar, mas traz uma paleta de cores não saturada e que jogar a luz nos locais certos. A trilha entra de modo pontual como uma vírgula bem-vinda. E as atuações…

Ah as atuações… Julián e Tomás entram, sem exagero, para o hall das grandes duplas do cinema. Muito graças a Dárin e Cámara. Ambos os atores dão o peso que aqueles personagens precisavam. O tempo de comédia, ainda mais em uma “meia” comédia, é fundamental. E eles sabem trocar passes para o outro marcar o gol na hora certa. Cada diálogo, cada silêncio, cada movimento, cada posicionamento em cena. Tudo está pleno aqui. O exagero, quando aparece, é bem administrado. Já a emoção, seja ela qual for, é solta – e de modo igualmente correto.

A amizade daqueles dois personagens é um exercício de desapego, confiança e amor. A química é tão bem estabelecida que na primeira cena já sabemos que eles são amigos de longa data. Em todas as outras vemos o real sentido da palavra amizade. O ápice é avassalador. E os poucos dias que eles passam juntos parecem meses para público, tamanha a familiaridade que temos com aqueles jovens senhores.

truman

Normalmente aponto algum defeito nos filmes, meu papel de “crítico” passa por caçar clinicamente as falhas de um longa. Cogitei falar de Paula (interpretada pela ótima Dolores Fonzi).  Uma personagem que me deu a sensação que poderia ter um peso maior (a ponto de eu cogitar a necessidade dela estar ali). No entanto, no terceiro arco tudo muda: ela cresce de tal maneira que quase chega a engolir os dois protagonistas, ou melhor, serve de balança para aquela relação. Ou seja, aquilo que eu tendia a apontar como defeito vem para ser justamente o equilíbrio. Em suma: obra perfeita, inesquecível e  irrepreensível. Nota: 10

Muitos consideram que para o filme tirar 10 ele tem que mudar as nossas vidas. Que seja: Truman mudou meu jeito de encarar cinema, morte e, claro, amizade. Nota 10 mantida

OBS: e por que raios o filme se chama Truman? Truman é o cachorro de Julián. E toda a história flui por causa do canino. Mesmo ele não aparecendo em todas as cenas, cada presença é forte a ponto de justificar o título. E sim, Truman tem o combo cachorro e câncer e ainda leva um 10….

Já teve nota, “obs” e a seguir o  trailer. Por que continuar a crítica? Preciso falar do final do filme. Portanto só desça a página, para depois do trailer, se já tiver visto a película (depois de conferir nas telonas, retorne aqui para que possamos continuar o papo).

A seguir terão detalhes cruciais da trama. Continue por tua conta e risco:

O fato de Julián não morrer é sintomático para diagnosticar o tom do filme. Todavia há uma “morte” parcial no meio do longa, quando Julián é demitido daquilo que mais lhe dava vida: os palcos. Não é à toa que o figurino, fotografia, câmera tudo muda naqueles instantes que o ator Darín encarna o ator Julián. A opção de mostrar a morte psicológica do personagem em detrimento à orgânica diz muito a que este longa veio.

Após o encontro de Julián com o filho, o telefone toca e é o teatro o chamando de volta. O símbolo aqui é evidente e sutil: Julián, que, claro, deu vida ao filho, tem após o encontro e a (não)despedida a possibilidade de seguir em frente. A “vida”, então lhe é dada novamente. E ele, novamente, recusa  – como havia recusado anteriormente o tratamento médico. Lembrando que ele o fez com o objetivo de… viver.

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