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Foi um fim de semana cheio para os fãs do Radiohead. Depois do teatrinho orquestrado pela banda durante a semana passada, em que eles fingiram estar “apagando” a si mesmos da internet (como se isso fosse possível), dois singles foram lançados, culminando no novo álbum, Moon Shaped Pool. O que me chamou atenção, porém, foi o segundo single do trabalho, intitulado Daydreaming. É uma música dentro dos padrões do Radiohead (profundamente bela e depressiva), mas o destaque fica por conta do seu videoclipe (igualmente belo e depressivo), dirigido por ninguém menos que Paul Thomas Anderson, o homem por trás de filmes como Sangue Negro e Magnólia.

Essa não é a primeira experiência de Anderson no mundo da música, pois o cineasta já dirigiu alguns clipes da americana Fiona Apple (Across the Universe de 1998, Fast as You Can de 1999, Limp e Paper Bag de 2000 e Hot Knife de 2013), por exemplo. Independente disso, sempre que um diretor de cinema aparece nos créditos de um clipe musical, o trabalho em questão ganha os holofotes, não importa o artista. É como se esse tipo de envolvimento trouxesse a certeza para o público de que esse videoclipe tem algo de especial.

A impressão não é exatamente equivocada e é possível provar isso analisando o assunto por duas vertentes. Primeiro, existem vários casos de diretores consagrados que começaram a carreira no mundo da música.  É o caso de David Fincher, por exemplo. O responsável por Clube da Luta, Seven, A Rede Social, Garota Exemplar, entre outros grandes filmes, começou como diretor de comerciais e videoclipes. A lista de colaborações é longa e inclui trabalhos com nomes menos conhecidos hoje em dia como Stabilizers, passando por artistas mais famosos como Paula Abdul e Mark Knopfler até nomes gigantes como Aerosmith (Janie’s Got a Gun) e finalmente, Madonna.

Com Fincher, a rainha do pop fez quatro vídeos. Oh Father e Express Yourself, de 1989, Bad Girl em 1993 e Vogue em 1990. Este último tornou-se um dos vídeos mais icônicos do pop, ocupando o segundo lugar em inúmeras listas de “melhores videoclipes da história” e sendo um dos marcos da carreira da artista. E é notável o diferencial deste vídeo em relação a outros de Madonna. Com sutileza e elegância, Fincher e a artista conseguiram mostrar de forma implícita, porém eficiente, toda a sexualidade que qualquer coisa envolvendo Madonna tinha na época, sem causar grandes polêmicas como outros trabalhos dela causaram.

O diretor de Clube da Luta tem dois Grammys e três MTV Video Music Awards (que no passado era oficialmente o “Oscar do videoclipe”, bons tempos) pelos seus trabalhos na música, uma marca que ele divide com Spike Jonze, outro diretor que  já se consagrou em Hollywood, mesmo tendo apenas quatro filmes no currículo (Quero Ser John Malkovich, Adaptação, Onde Vivem os Monstros e Ela). Ele também começou sua carreira nos clipes e é bem ativo nessa área até hoje (já dirigiu Lady Gaga, Arcade Fire e Kanye West nos últimos anos). Não tem nem como começar a listar os artistas com quem Jonze já trabalhou, mas dá para falar dos seus três trabalhos mais marcantes, que desde já mostraram o que ele poderia oferecer para o cinema.

São de Spike Jonze os videoclipes dos maiores hits da carreira de três nomes bem conhecidos dos anos 90/00: Weezer (Buddy Holly), Beastie Boys (Sabotage) e Fatboy Slim (Weapon of Choice, abaixo). Nos três vídeos, o diretor já evidencia o estilo que fez dos seus filmes trabalhos com um diferencial que muita gente não sabe explicar. Buddy Holly tem a inocência e o senso de fascinação com coisas simples de Ela e Onde Vivem os Monstros, enquanto Sabotage e Weapon of Choice tem o humor bizarro de Quero Ser John Malkovich (este segundo ainda conta com outro elemento do cinema, o ator Christopher Walken, numa coreografia insana para fazer qualquer um assistir o vídeo em looping) . Por fim, os três videoclipes são maravilhosamente esquisitos, como toda filmografia de Jonze.

Isso nos leva a outra vertente que torna todo clipe dirigido por um cineasta um trabalho digno de ser visto: os diretores já consagrados que resolvem embarcar na indústria musical. Na maioria das vezes, isso é um desejo do próprio artista, que vê o estilo do cineasta como o ideal para representar seja lá o que for.

Foi o caso de Bones e Here With Me, clipes do The Killers dirigidos por Tim Burton. Com o seu estilo peculiar (para dizer o mínimo), o diretor de Edward, Mãos de Tesoura (e tantos outros filmes que todo mundo conhece muito bem) fez dois daqueles clipes irresistíveis de se assistir (bom dizer que as músicas ajudam também). O primeiro transforma a banda e os personagens do vídeo em esqueletos animados em stop-motion e o segundo traz Winona Ryder e Craig Roberts numa história… bem, acho que só assistindo para entender. De qualquer maneira, é impossível não reconhecer o estilo de Burton em ambos os vídeos.

Agora, lembram-se que Vogue sempre figura em segundo lugar nas listas de melhores clipes da história? Isso porque ninguém tira o primeiro lugar do lendário Michael Jackson, com o videoclipe que basicamente tornou esse texto possível e fez história na música e na televisão: Thriller (abaixo), de 1983, dirigido por John Landis e até hoje, o maior, melhor e mais importante clipe de todos os tempos.

Thriller se encaixa perfeitamente nesta segunda vertente que estamos analisando. Foi o próprio Rei do Pop que entrou em contato com Landis para dirigir o clipe. Quando disse que ele é responsável por esse texto existir, não estava brincando: naquela época, cineastas sequer chegavam perto de videoclipes e o fato de Landis ter aceitado esse trabalho por si só já foi algo histórico. O diretor americano tinha acabado de lançar dois sucessos de público e crítica que uniam os dois elementos perfeitos para Michael. Os Irmãos Cara-de-Pau tinha o elemento musical e Lobisomem Americano em Londres trazia o terror. O resultado eu nem preciso descrever aqui, porque o marco na cultura pop que Thriller deixou é inesquecível e o clipe permanece espetacular até hoje.

Mas é claro que o Rei do Pop não parou por aí. Quatro anos depois, quando lançou o álbum Bad, ele resolveu apelar e chamou Martin Scorsese para dirigir o clipe da faixa-título do disco. Estamos falando de uma época em que o cineasta já tinha Caminhos Perigosos, Taxi Driver e Touro Indomável no currículo. Alguns já o consideravam um dos grandes diretores do cinema americano (a consagração definitiva veio nos anos 90, com Os Bons Companheiros e Cassino).

O resultado da parceria foi um curta de 18 minutos (Parte 1 e Parte 2. Ele infelizmente não existe na íntegra no YouTube), que envelheceu lamentavelmente mal. A direção de Scorsese tem a competência habitual, conduz a história inocente de forma segura e ainda nos entrega o que deve ser a melhor atuação de Wesley Snipes (uma das primeiras dele também). Porém, sabendo tanto de Michael Jackson como sabemos hoje, é difícil vê-lo como um garoto de periferia que quer provar para os amigos que ainda é “mau” com uma roupa de couro e uma coreografia maluca e levar aquilo a sério. Independente da realidade atual, não deixa de ser admirável saber que tem a mão de um dos maiores diretores da história do cinema por trás do clipe. E a música continua ótima, afinal, é do Michael dos anos 80 que estamos falando.

Bem, só para variar um pouco, o texto ficou gigantesco.  E isso porque nem citei o que Brian De Palma, Gus Van Sant, Michel Gondry ou Spike Lee já fizeram na indústria musical. Além de ter mencionado Scorsese, que tem uma forte relação com pop e rock e até já dirigiu um show dos Rolling Stones. Então, chegou a sua vez: diga aí nos comentários se tem algum videoclipe dirigido por um cineasta consagrado que eu deixei de citar e me ajude a ir preparando a próxima parte desse texto. É sempre um prazer relembrar essas coisas porque sempre rende um tempinho ouvindo muita música boa no YouTube.

Até semana que vem!

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