A ficção científica está aí há muito tempo entre nós – muito obrigada, dona Shelley – e os filmes do gênero são uma delícia pra quem gosta de absorção visual de utopias e distopias no sentido sinestésico. O Cinema de ficção científica é vasto, é cheio de tendências e cheio de coisa boa que acaba passando batido pelos nossos olhos diante de toda essa pré-distopia em que vivemos.

Então por quê não fazer uma listinha com algumas indicações de filmes que nem sempre são colocados à luz quando falamos de sci-fi? Pra quem gosta de ficção científica, indicação nunca é demais, não é?

Alguns de vocês podem estar familiarizados com os termos que a equipe do podcast  (mais proibidão desse mundo) Tá Na Netflix, aqui do Acabou de Acabar,  e sabe que colocaríamos esses filmes na categoria “Tênis Verde”, ou seja, coisa que ninguém assiste ou conhece. Mas vamos mudar isso e colocar essas belezinhas no mapa, né?

E se você tiver alguma indicação, passa pra gente nos comentários da postagem, no inbox da fanpage, via holograma se você vier do futuro. Estamos aí, aceitando todas as formas de contatos imediatos.

1. Turista Espacial (1996)

Para abrir a matéria com péssimas traduções de título, temos La Belle Verte um filme francês que é protagonizado, dirigido e tem a trilha sonora composta pela mesma mulher, Coline Serreau. Nele, temos a nossa protagonista Mila, habitante até então do Planeta Verde, lugar perfeito, cheio de comida saudável, orgânica, uma sociedade politica e economicamente organizada, enfim, o retrato perfeito de tudo em que falhamos ser enquanto planeta aqui na Terra.
No entanto, Mila descobre que foi adotada e que, na verdade era da Terra e por isso, teve que voltar a habitar o pálido ponto azul. Aqui, ela não encontra nada com que possa sobreviver. Para quem viveu a vida inteira tomando água pura, comendo comida pura, a Terra se faz o lugar mais hostil, especialmente na perspectiva distópica da narrativa. A solução para Mila, é, então, segurar bebês, que são os únicos seres puros do planeta, para conseguir sobreviver.
É um filme bem humorado, que não deixa de ter densas críticas sobre o modo de vida da humanidade e que mais ainda, critica de forma ferrenha a questão da hostilidade ao desconhecido e do preconceito ao outro, remontando críticas antropológicas em um contexto de ficção científica, onde os habitantes do Planeta Verde, por mais perfeitos que se digam, tem tendência a hostilizar os terráqueos.

2. Terra Tranquila (1985)

Certa manhã, Zac Hobson acordou de sonhos intranquilos e descobriu que estava sozinho. As pessoas no mundo sumiram e ele, em desespero, tenta fazer contado com alguém de alguma forma. Notando que os esforços não estavam valendo muito, o cientista passa a tentar aceitar a condição solitária e, estando sozinho consigo, passa a apresentar comportamento estranhos, tendências autoritárias (sem subordinados, mas…), fingindo ser um ditador em meio aos escombros do mundo. Uma das angústias acaba quando ele descobre outras poucas pessoas ainda remanescentes no mundo, que também sofreram com os efeitos da solidão absoluta em excesso. A jornada que se desenha a partir daí é justamente sobre a sobrevivência não somente num futuro pós apocalíptico, mas sim depois de tanto tempo sendo esmagado por um silêncio brutal, voltar a ouvir vozes que estão realmente fora da própria cabeça.

3. O Cérebro de Aço (1970)

De verdade, por favor, esse título é uma dor no meu coração. O original? Colossus: The Forbin Project, baseado no livro “Colossus” de Dennis Feltham Jones. O filme foi lançado ali pertinho de grandes estreias da ficção científica mundial e talvez por isso não tenha tanto destaque. Joseph Sargent, o diretor, apresenta uma visão de rebelião das máquinas que muito retratava o medo da época, tendo em vista o contexto de corrida espacial e “onde vamos parar com tudo isso? E se as inteligências artificiais ficarem contra nós?”. É justamente essa apreensão que toma conta da trama, onde cientistas norte-americanos desenvolvem um computador muito além do comum para fins de controle de atividades nucleares e coisas do tipo. Esse mocinho encontra o seu equivalente russo e, se houver mais história contada, isso aqui vira spoiler.

4. Primer (2004)

Esse filme dá tanto nó na cabeça, que fica até difícil explicar. O roteiro do matemático Shane Carruth, que ficou encarregado da produção, direção e até atua no filme segue uma linha experimental cheia de complexidades de conteúdo, mas a história acaba por te prender. Dois amigos cientistas atiram no que viram e acertam no que não viram durante um experimento que visava inicialmente reduzir a massa de objetos, mas acaba se tornando uma máquina do tempo. O filme é curto para ser tão denso depois que se coloca esse plot inicial. Os questionamentos éticos se misturam as questões teóricas que envolvem a experiência e os dois cientistas começam a se deparar com os conflitos que advém da capacidade de ir e voltar no tempo.
Vale ressaltar que além de ser o primeiro longa de Carruth, ele também foi feito com um orçamento limitadíssmo de sete mil dólares.

5. Eva – Um Novo Começo (2010)

A fotografia desse filme e os elementos visuais usados pra construir a realidade de ficção científica são duas das coisas mais lindas que já vi. São construções quase lúdicas, com um toque de encatamento e fábrica de brinquedos futurista, por assim dizer. Há aquela aproximação com a contemporaneidade em muitos elementos do filme, também, sem falar da narrativa em si, que tem como cerne também as relações humanas, familiares, a memória, o tempo e a forma como as relações se constroem e destroem.
Fruto das narrativas que discutem a questão das inteligências artificiais, a questão do homem e a máquina e como se dão essas relações, Eva se diferencia por tratar de tudo com uma sensibilidade poética muito bonita, lembrando um pouco do que Ray Bradbury faz em sua literatura, misturando a ficção científica com uma linguagem fluida, as vezes metafórica e, como eu disse, poética.
Os plots são muito bons, as interpretações são maravilhosas, dando destaque a Claudia Vega, atriz que interpreta Eva e Daniel Brühl, que vive o jovem gênio da robótica que depois de muitos anos afastado, volta a sua cidade natal para retomar projetos de pesquisa na faculdade.