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Na semana passada, falei sobre cineastas que já se envolveram com a indústria musical na direção de videoclipes, seja no início ou durante a carreira. Curiosamente, o assunto permanece igualmente rico quando se invertem os papéis. E os músicos consagrados que já compuseram trilhas sonoras para grandes filmes?

Não estou falando de canções como os temas de 007, por exemplo. Isso é assunto para outro momento (e já falei um pouco disso aqui). O caso aqui são artistas que viraram compositores trabalhando na música que faz parte de todo o filme. É o que Eddie Vedder, líder do Pearl Jam, fez no excelente Na Natureza Selvagem, por exemplo (juntamente com Michael Brook e Kaki King, ajudando na parte orquestrada).

na natureza

O vocalista da famosa banda grunge é um dos dois exemplos de bandas e artistas que já fizeram trilhas sonoras: Vedder é o artista que se aventurou no trabalho de compositor para o cinema só uma vez na vida. Assim como cineastas chamam a atenção quando dirigem videoclipes, pop/rockstars sempre geram notícia quando trabalham com a trilha sonora de um filme. O resultado tende a ser sempre bom e quase sempre muito diferente.

No caso de Na Natureza Selvagem, o trabalho do líder do Pearl Jam é uma valiosa ferramenta para ajudar a contar a história de Christopher McCandless trazendo um som folk (com um rock n’roll ocasional) para a jornada de descoberta do protagonista. Com uma das melhores vozes do rock na atualidade, Vedder rouba o filme sempre que uma música cantada aparece, com sua voz seguindo a narrativa, começando cheia de otimismo (Setting Forth e Hard Sun) e tornando-se cada vez mais grave, sombria e melancólica conforme o filme vai passando e McCandless vai entendendo que as coisas não funcionam exatamente como ele esperava (Society e Guaranteed). Foi inexplicavelmente esnobado no Oscar.

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Outro nome extremamente popular que fez sucesso com uma trilha sonora nos últimos anos foi o duo luso-francês Daft Punk, que deixou os fãs pasmos quando foram confirmados como compositores da trilha de Tron: O Legado, em 2010. E logo no trailer, já ficou óbvio que eles eram a escolha perfeita para o trabalho. Fãs do filme original, o duo conseguiu cumprir as expectativas do produtor de O Legado em todos os sentidos: fizeram algo muito diferente tanto de uma trilha sonora tradicional, quanto de qualquer outra coisa que eles já haviam lançado até então.

A trilha do segundo Tron vai para um caminho inusitado em relação ao que o Daft Punk estava fazendo até aquele momento, já que há uma ênfase muito maior na orquestração do que nas suas principais armas, o sintetizador e a bateria. Todo esse cuidado rendeu uma trilha fantástica, que poderia ser só um dos destaques de um filme excelente. Infelizmente, Tron: O Legado ficou só na promessa e o Daft Punk, apenas fazendo seu trabalho, acabou engolindo a produção, já que de legado mesmo só ficou a trilha sonora, lembrada até hoje principalmente pelo seu single, a viciante Derezzed.

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Mas como dito antes, existem dois exemplos desses casos. E o segundo é de músicos que tinham suas bandas, viraram compositores de trilhas sonoras e acabaram… pegando gosto pela coisa, por assim dizer. Foi o que aconteceu com o guitarrista do Radiohead, Jonny Greenwood. Seu primeiro grande trabalho no cinema foi a trilha de Sangue Negro, o jovem clássico de Paul Thomas Anderson. Greenwood já compunha peças orquestradas e havia feito sua estreia no cinema com o documentário Bodysong. Mas foi no filme de Anderson, um fã de longa data de Radiohead, que a música de Greenwood brilhou na tela grande. A trilha de Sangue Negro é arrepiante do início ao fim e aliada à direção, dá o tom de épico americano que o filme pede e ajuda a conduzi-lo. É tensa, inquietante e serena ao mesmo tempo. Um trabalho admirável. A parceria com P.T. Anderson se repetiria mais duas vezes, em O Mestre e Vício Inerente.

Quem também firmou uma parceria com um cineasta foi Trent Reznor, vocalista e líder do Nine Inch Nails, que desde 2010 compõe as trilhas de todos os filmes de David Fincher (juntamente com Atticus Ross). É dele a música de A Rede Social, Millenium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres e Garota Exemplar. Diferente de Greenwood, que vai para o caminho orquestrado tradicional das trilhas incidentais, Reznor é completamente experimental, apostando em sons eletrônicos e industriais, num tom mais simplista e menos escandaloso, o que sempre rende trabalhos únicos, tanto entre si quanto entre outros filmes.

A trilha de A Rede Social, que acabou vencendo o Oscar, chama a atenção por contrastar com o filme. Enquanto os acontecimentos em tela são cada vez mais tensos e turbulentos, a trilha é minimalista, quase contemplativa, como se procurasse representar mais o protagonista Mark Zuckerberg e a forma dele lidar com o mundo desabando a volta dele, do que com o que acontece no filme de fato.

Por outro lado, os trabalhos de Reznor e Ross em Millenium e Garota Exemplar já são menos sutis. A simplicidade ainda está ali, mas já trabalha de acordo com a forma que Fincher desenvolve a narrativa, criando um ambiente insuportavelmente tenso e quase desconfortável, alternando entre momentos calmos e completamente insanos. Vale dizer que Millenium ainda conta com um cover arrepiante e inusitado de Immigrant Song do Led Zeppelin, completamente reinventada por Reznor e com Karen O nos vocais (a música é tocada nos ótimos créditos iniciais do filme, abaixo).

Mas tratando-se de membros de bandas que arriscaram em trilhas no cinema, ninguém se compara com a completa virada que Danny Elfman deu na sua carreira. Muita gente (principalmente da nova geração) talvez não saiba, mas antes de criar os icônicos temas de Simpsons, Batman, Edward: Mãos de Tesoura e Homem Aranha, Elfman era o líder do Oingo Boingo, uma banda de new wave que começou em 1976, mas tem todo o estilo inconfundível dos anos 80. Hoje em dia, o grupo entra naquela famosa história de “se já ouvi, não sabia que eram eles”, porque se o nome não é familiar, uma vez ou outra na vida todo mundo já ouviu Weird Science ou Dead Man’s Party, mesmo sem saber.

A banda acabou em 1995, quando Elfman já tinha uma parceria firme com Tim Burton (apenas três filmes do diretor – Ed Wood, Sweeney Todd e O Orfanato da Sra. Pelegrine Para Crianças Peculiares, seu próximo filme – não tem a assinatura de Elfman na trilha sonora) e depois disso, o compositor voltou todas as suas atenções para o cinema, onde descobriu um talento que nem ele sabia que tinha no começo (sua primeira trilha, para As Aventuras de Pee-Wee, foi feita com base no trabalho de Bernard Herrmann e Nino Rota, duas lendas do cinema que Elfman já disse que são suas grandes inspirações). Vendo os clipes do Oingo Boingo, é difícil imaginar que aquele vocalista com cara de maníaco seria um dos compositores mais conhecidos do cinema atualmente.

Como sempre, esses são apenas alguns exemplos, na verdade, são os exemplos mais famosos de artistas que se tornaram compositores de trilhas por “um dia” ou por uma vida. Ainda existem diversos casos a serem explorados e só para não perder o costume, você pode me ajudar a lembrar de outros artistas que assinam trilhas sonoras no cinema, aí nos comentários, porque eu vou encerrando a coluna de hoje por aqui.

Até semana que vem!

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