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Colocar vários arcos e personagens num único filme, é uma aposta arriscada. O roteiro precisa ser bastante coeso, apresentando todos os elementos, fazendo a plateia se envolver e entender o que está acontecendo na história. E se Capitão América – Guerra Civil foi um grande acerto na hora de explorar tudo ao mesmo tempo na tela de projeção, o mesmo não pode-se dizer de X-Men Apocalipse.

Após os acontecimentos de Dias de um Futuro Esquecido, em 1973, o grupo X-Men meio que deixou de existir: Xavier comanda sua escola; Mística segue sem rumo; Magneto tentou uma vida civil e por aí vai. O mundo comemora os 10 anos da boa convivência entre mutantes e humanos (o filme se passa em 1983), embora o preconceito ainda exista. É neste cenário que surge o vilão Apocalipse, que é desperto após séculos de hibernação. Ele é o primeiro mutante da história, o mais poderoso e se torna uma ameaça global.

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Todos os filmes da franquia X-Men têm uma abertura espetacular e este aqui não é diferente: toda a formação do Apocalipse e a reconstituição de época são feitos com elegância, apesar da computação gráfica mal renderizada em alguns momentos. Este, aliás, é um dos problemas de X-Men Apocalipse. A intenção era fazer algo apoteótico e algumas cenas funcionam, mas na maioria dos casos, claramente se vê que os atores interagem com o nada em um estúdio em um fundo verde.

Bryan Singer é um grande diretor e já se provou na própria franquia X-Men com os dois primeiros filmes e em dramas como Os Suspeitos e O Aprendiz e quem o acompanha sabe do carinho e paixão que ele tem pela franquia dos mutantes, mas aqui apresenta uma direção extremamente preguiçosa e quase protocolar (alguém se lembrou de Brett Ratner em X-Men 3?). E tudo isso em um roteiro que apresenta um grande vilão das HQs, uma grande época, que são os anos 80 e alguns mutantes em fase de desenvolvimento.

Há vários personagens mal aproveitados em X-Men Apocalipse, como a Tempestade, Fera, Jubileu e Psylocke. Esta última, que foi apresentada nos trailers e materiais promocionais como uma personagem feminina forte e teria mais tempo de tela, mas com poucos diálogos e uma presença descartável, ela pode ganhar uma nova chance em um novo filme da franquia.

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E o roteiro perdeu uma grande chance de mostrar o Magneto como um vilão de fato e seu arco com sua família tinha todo o potencial para isso. Mas aqui em X-Men Apocalipse, Magneto é praticamente um soldado do vilão do título, tem uma presença discreta, embora Michael Fassbender tente fazer a diferença como o grande ator que ele é.

E o mesmo vale para Oscar Isaac como o vilão Apocalipse. Ele é um grande ator, como visto em filmes Ex-Machina e no próprio Star Wars como Poe Dameron. E se esforça para entregar o melhor personagem possível, mas com o seu visual mal feito e motivações que não convencem, ele, infelizmente, resultou em um vilão comum. As aparências com o Ivan Ooze de Power Rangers não se resumem à aparência física, mas também ao perfil do personagem.

Até a Mística é uma personagem problemática: Jennifer Lawrence é uma boa atriz e das maiores – senão a maior – estrela de sua geração, e possivelmente por isso ela tenha mais espaço do que deveria e ofuscando quem mereceria mais tempo de tela e o pior: aparecendo de cara limpa, sem a maquiagem de Mística e consequentemente, tendo seu poder da transformação praticamente ignorado durante os intermináveis 150 minutos de projeção.

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E os personagens que realmente têm um arco dramático digno do espírito dos X-Men são o Noturno, que funciona muito bem como um alívio cômico – e seu poder de teletransporte é fundamental para a trama – o Ciclope, que praticamente recebe uma história de origem e a Jean Grey (a melhor personagem do filme) vivida por uma Sophie Turner que claramente evoluiu como atriz, tanto no filme, quanto em Game of Thrones e aqui faz uma Jean que precisa aprender a controlar seus poderes de telepata ao passo que rivaliza os poderes de telepata com o Xavier – e enxerga nele uma figura paterna.

A participação do Wolverine foi interpretada por muitos como um fan service, o que não deixa de ser verdade, mas pode dar gancho para o futuro dos mutantes do cinema. E, claro, há a cena do Mercúrio que é ainda melhor do que aquela apresentada em Dias de um Futuro Esquecido ao som de Sweet Dreams, de Eurythmics. Evan Peters está mais à vontade no papel, teve mais presença aqui do que no filme anterior, terá vida longa no cinema e na TV e tem tudo para um carreira consolidada. X-Men Apocalipse é, claramente, o mais fraco dessa nova trilogia dos mutantes. Longe de ser um filme ruim, apresenta boas ideias, grandes personagens, mas que resulta em uma colcha de retalhos. Culpa maior do Bryan Singer ou da Fox? Ao menos abriu espaço para o futuro dos mutantes nos cinemas e a franquia está longe de acabar. E não saiam do cinema antes de os créditos terminarem… Nota: 6,0

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