Você tá lá, vendo um filme de terror, e aí tem aquela cena. Tá tudo relativamente calmo, apesar de ter certa tensão no ar. Então, do nada, surge o assassino, o monstro, alguma coisa, e a trilha sonora faz um barulhão súbito. E você dá um pulinho na cadeira.

Isso, em inglês, é chamado de jump scare (algo como “susto que faz pular”). E se você viu muitos filmes de terror na sua vida, com certeza já tomou uns sustos graças a cenas como essas.

A questão é que o jump scare se tornou um recurso muito usado no gênero. Talvez usado até demais. Afinal, trata-se de um “susto fácil”: pega uma imagem que dá medo, coloca um som extremamente alto e pronto, seu coração já tá palpitando mais rápido. E por ter se tornado um recurso muito utilizado nos filmes de terror, frequentemente, a gente vai ao cinema já esperando ver esse tipo de cena.

Por exemplo: eu ainda não vi A Bruxa, o tão falado filme de terror lançado aqui no Brasil este ano. Com certeza, tenho muita vontade de conferir. Mas sei que ele dividiu muito as opiniões. Teve quem achou genial, teve quem achou o filme extremamente chato. E uma reclamação constante que ouvi vinda de quem não curtiu A Bruxa foi justamente que ele não te assusta.

Ou seja, pra muita gente, parece que levar um susto mais clássico (como o jump scare), tornou-se quase um requisito pra qualquer filme ser considerado de terror. Mas não acho que deva ser sempre assim.

Afinal, é possível brincar com a combinação entre imagem e som na hora de dar medo no público e, ao mesmo tempo, fazer algo diferente do tradicional “susto com barulhão”. Por exemplo, dá uma olhada nesse trecho de O Chamado.

A gente não toma um susto intenso com a imagem da menina morta no armário. Mas esse trecho, ainda assim, é perturbador. Porque ele soube usar bem a imagem assustadora com um certo nível de dosagem de som. A intenção aqui parece ser, primeiramente, chocar e não apenas assustar por assustar.

E sem contar quando filmes fazem um claro esforço em não usar ou abusar dos jump scares. Um dos melhores exemplos de que consigo lembrar é A Bruxa de Blair. Esse longa-metragem quis se manter fiel à proposta de fingir que era um vídeo gravado por uma câmera real. E, por isso, ele não tem uma trilha sonora sinistra nem barulhos que surgem do nada pra dar medo. Ao longo do filme, vemos que o som está lá pra criar uma atmosfera realista, mas sem deixar de ser perturbadora. É o caso da cena em que os protagonistas começam a ouvir, do nada, barulhos de crianças brincando na floresta.

O som das crianças não é intenso, não fica alto de forma súbita. Mas, ainda assim, deixa a gente grudado na cadeira. Em outros momentos, A Bruxa de Blair vai tirar qualquer som desnecessário pra construção da cena. Um bom exemplo disso é o trecho mais famoso do filme: quando Heather se filma assustada. Aqui, só a fala, o choro e a respiração pesada. É a atuação que dá medo.

Tem outros filmes que também buscam não depender tanto do susto barulhento (o primeiro Atividade Paranormal me vem à cabeça, por exemplo). E isso é bom. Mostra que alguns diretores tentam nos dar medo sem seguir um “protocolo” de linguagem cinematográfica.

Ou seja, quanto mais criatividade os cineastas tiverem na hora de nos assustar, mais interessantes ficam os lançamentos de terror. E vamos combinar: com tanto filme ruim desse gênero saindo nos cinemas, um pouco de criatividade é muito bem-vindo.

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Gostou de analisar o som nos filmes de terror? Então você deveria conferir este vídeo do meu canal no YouTube, o EntrePlanos! Nele, eu analiso como O Babadook se destacou como um grande exemplar de terror brincando justamente com a combinação entre som e imagem. Clica aí!