Alice no País das Maravilhas, de 2010, foi um filme que mais prometeu do que cumpriu. Apesar da bilheteria alta, poucos realmente gostaram do filme e a promessa de uma nova franquia parecia enterrada. Mas eis que a Disney anunciou em 2015 que faria uma continuação para 2016 com o título de Alice Através do Espelho, baseado no livro de Lewis Carroll e embora o filme não tenha quase nada do livro, essa continuação é claramente melhor do que o antecessor, tanto no visual, mas fundamentalmente no roteiro.

Alice Através do Espelho se passa alguns anos após os eventos do filme anterior e com a protagonista sendo capitã de um navio, passando por diversos problemas familiares. Após um acaso, ela descobre um espelho mágico e volta ao país das maravilhas. Lá descobre que o Chapeleiro Maluco não é mais o mesmo e apenas ela pode salvá-lo, mas que para isso precisaria lidar com um novo vilão.

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Há muito mais elementos em Alice Através do Espelho, o que faz do filme uma daquelas histórias que quanto menos se souber sobre, menor o risco de spoilers. Contar a sinopse sem estragar nada é um desafio. Não que o filme possa ser considerado como “cerebral”, porém os recursos usados na trama são de encher os olhos, incluindo os flashbacks dos personagens são apresentados com elegância. Também vale lembrar que todos os personagens caricatos ganharam uma profundidade maior e um grande arco dramático, sobretudo a Rainha Vermelha, interpretada pela Helena Bonham Carter, que de vilã insuportável do primeiro filme, ganhou uma personagem mais humana e finalmente entendemos as suas motivações ao invés de apenas querer “cortar cabeças”.

O primeiro filme revelou a australiana maravilhosa Mia Wasikowska e sua carreira teve um relativo sucesso, mostrando uma notável evolução como atriz , sobretudo após seu trabalho em Segredo de Sangue. Aqui ela faz uma Alice mais heroica, mais segura de si e menos frágil. Aliás, Alice Através do Espelho expõe valores que podem passar despercebidos em meio em visual e efeitos especiais, mas que são um grande diferencial, sobretudo nos momentos da “vida real”, quando Alice está fora no país das maravilhas, como o machismo, representatividade feminina e a mente da sociedade conservadora de uma Inglaterra vitoriana do final do século XIX.

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Johnny Deep e Anne Hathaway, apesar de serem indiscutivelmente ótimos atores, não parecem muito à vontade em seus papéis, como o Chapeleiro e a Rainha Branca. Apesar de seus personagens ganharem mais profundidade, o mérito acaba caindo nos recursos de roteiro e menos pela entrega que os atores poderiam ter feito e têm talento para tal. A impressão que fica é de uma atuação protocolar e motivada apenas pelo contrato que devem ter assinado com a Disney. E o curioso é que a Disney coloca o nome dos dois na frente de Mia Wasikowska durante os créditos e no pôster.

Quem está mais à vontade em Alice Através do Espelho é Sacha Baron Cohen, como o vilão Tempo. O ator claramente se diverte no personagem (mas sem as extravagâncias de Borat e Brüno) e, como controlador do tempo cronológico, se torna mais vital à história conforme a trama vai avançando.

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Alice Através do Espelho certamente vai render muito aos cofres da Disney, o que pode significar um terceiro filme de uma possível trilogia. Provavelmente o veremos no Oscar 2017, ocupando vagas de indicações nas categorias técnicas, sobretudo o figurino e design de produção. Não deixe de reparar na trilha sonora de Danny Elfman e o filme faz uma homenagem justa ao saudoso Alan Rickman, que aqui, interpreta o Absolem.

Em um ano de tantas mulheres fortes na cultura pop, como a Mulher-Maravilha e a Judy de Zootopia, Alice já pode figurar nas heroínas de ação.#alicemerepresenta

Nota: 9,0