Maio chegou ao fim e, com ele, acabou também a edição 2016 do Festival de Cannes, o mais famoso festival de cinema do mundo. E se Cannes geralmente chama a atenção pelos filmes, esse ano o local recebeu um protesto que foi noticiado no mundo todo: quando a equipe do filme brasileiro Aquarius protestou no tapete vermelho contra o impeachment de Dilma Rousseff. O acontecimento, é claro, chamou a atenção e gerou muito debate. E tudo isso só me fez pensar sobre como Cannes é, frequentemente, palco de manifestações políticas. Em especial, me lembrei de 1968, o ano em que o Festival de Cannes foi cancelado.

Pra entender por que isso aconteceu, é necessário antes relembrar o contexto francês da época. Nos primeiros meses de 1968, surgiu uma série de protestos de estudantes e de trabalhadores em Paris, focados, principalmente, em combater as práticas do capitalismo. Mas as revoltas sofreram uma repressão extremamente violenta por parte da polícia, o que gerou apenas mais protestos no país inteiro.

Protesto de estudantes em Paris, 1968

Protesto de estudantes em Paris, 1968

E todo esse tumulto acabou alcançando Cannes. Assim que o festival começou, em maio daquele ano, um grupo de cineastas, produtores e atores anunciaram que queriam cancelar o Festival de Cannes em solidariedade aos protestos dos estudantes. À frente desse grupo, estava o cineasta francês mais fervoroso, politicamente falando: Jean Luc Godard. Junto, estavam também François Truffaut e Claude Lelouch.

Pouco a pouco, mais pessoas acabaram se convencendo de que deveriam apoiar o cancelamento do festival. Membros do Júri daquele ano concordaram com o boicote, como o diretor francês Louis Malle, o cineasta polonês Roman Polanksi e a atriz italiana Monica Vitti.

Até mesmo alguns dos cineastas que tinham filmes concorrendo no festival daquele ano aderiram ao protesto. Foi o caso de Dominique Delouche (França), Milos Forman (Checoslováquia), Jan Nemec (Checoslováquia), Alan Resnais (França), Michel Cournot (França), Mai Zetterling (Suécia) e Salvatore Samperi (Itália).

Da esquerda para a direita: Claude Lelouch, Jean Luc Godard, François Truffaut, Louis Malle e Roman Polanski

Da esquerda para a direita: Claude Lelouch, Jean Luc Godard, François Truffaut, Louis Malle e Roman Polanski. Cannes, 1968.

Mas o protesto não se deu de forma completamente pacífica e civilizada. Por exemplo: quando estava prestes a começar a projeção de Peppermint Frappé, filme do cineasta espanhol Carlos Saura, o próprio Saura tentou impedir as cortinas em frente à telona de se abrirem, com a ajuda de Truffaut, Godard e Geraldine Chaplin, a estrela do filme. Mas como as cortinas eram pesadas e puxadas por um motor potente, os quatro acabaram pendurados como folhas na tentativa de impedir a exibição, que, eventualmente, acabou sendo cancelada.

Em outros momentos, debates acalorados aconteceram no festival entre quem apoiava o cancelamento e quem era contra, a ponto de pessoas gritarem umas com as outras e até mesmo distribuir socos.

Com tanta confusão, em 19 de maio, o Festival de Cannes de 1968 foi oficialmente cancelado, cinco dias antes do final previsto. Não houve competição, nenhum filme foi vencedor de prêmio algum.

Tantos anos depois, muito ainda se debate sobre esse acontecimento. Alguns cineastas que participaram admitem que aderiram ao boicote de forma relutante. Um deles é o checo Milos Forman, que, já naquela época, não via muito sentido no protesto. Em entrevista à Variety em 2008, o cineasta revelou como se sentiu. “Era, basicamente, uma agitação de base marxista. E o absurdo era que eu e [o cineasta Jan] Nemec esperávamos que a bandeira vermelha em nosso país caísse. Era uma situação totalmente absurda, mas acho que a gente aceitou as contradições.”

De uma forma ou de outra, o boicote de 1968 teve um forte impacto no Festival de Cannes. Foram feitas mudanças na estrutura do evento, como a criação da Quinzena dos Diretores, que começou a diversificar os filmes exibidos. Se antes Cannes era praticamente território exclusivo de produções europeias, depois ele passou a trazer mais obras asiáticas e latinoamericanas. Além disso, outra alteração significativa foi feita. Os longas-metragens exibidos em Cannes não mais seriam escolhidos pelos países produtores, mas pela própria organização do festival.

Nos anos seguintes, Cannes se tornou palco para exibições de filmes da contracultura, como Easy Rider – Sem Destino e Mash. Cada vez mais, o festival se tornava um evento focado nos cineastas autores, com esse ar de cinefilia que lhe é tão característico atualmente.

Junte esse tipo de ativismo político às constantes histórias sobre filmes sendo vaiados, escândalos com diretores banidos e outros acontecimentos midiáticos e você pode entender porque Cannes nunca é só sobre os filmes da competição. É também sobre como os ânimos podem se exaltar em torno dessa arte que a gente tanto aprecia e quais mudanças podem surgir a partir disso.

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Falando em França e cinema, eu acho que você deveria conferir o novo episódio do meu canal no YouTube, o EntrePlanos! Nele, eu analiso o que os filmes de Asterix, um dos maiores ícones da cultura francesa, podem nos ensinar sobre história. Clica aí!