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Donna Sheridan, dona do hotel Villa Donna, está correndo rumo ao casamento de sua filha Sophie, quando é parada por Sam Carmichael, seu primeiro grande amor. Ele tenta um diálogo com ela, tenta se desculpar pelos erros do passado, até que ela resolve desabafar e encerrar o assunto. E faz isso da forma que todo mundo querendo acabar com uma discussão de relacionamento deveria fazer (atenção: há sarcasmo): cantando The Winner Takes it All, um dos grandes clássicos do ABBA.

A cena é de Mamma Mia!, filme de 2008 que adapta um sucesso da Broadway de 1999. Acontece que a música em questão, brilhantemente interpretada por Meryl Streep diante de um atônito Pierce Brosnan, é de 1980. Porém, está assustadoramente contextualizada dentro da história, assim como todas as outras canções do grupo sueco no filme. Isso porque Mamma Mia! faz parte de um subgênero peculiar e sempre divertido de explorar no cinema e no teatro: o chamado jukebox musical, produções que utilizam músicas previamente lançadas na sua trilha sonora, contextualizando-as dentro de um roteiro (muitas vezes forçando um pouco a barra nesse contexto).

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Nos últimos anos, alguns exemplares desse tipo de musical surgiram, alguns encontrando seu público, outros fracassando na bilheteria e praticamente todos sendo suportáveis mais pelas músicas do que por qualquer outra coisa. Os jukebox musicals contemporâneos baseiam-se em enfiar o maior número de músicas famosas possível no filme, mesmo que o roteiro não tenha mais espaço ou elas soem avulsas na trama. O já citado musical baseado em canções do ABBA não me deixa mentir.

Além de toda a história ser meio bizarra e datada mesmo para o ano em que o filme se passa (em 1999), chega um determinado momento em que a sensação é que realmente ligaram um jukebox, já que os personagens passam a cantar ininterruptamente, separando uma música da outra por meia dúzia de frases (o que não impede o filme de ter alguns bons momentos, como o descrito no começo do texto e a sequência da música-título. O fato de ambos serem protagonizados por Meryl Streep não é mera coincidência).

E o que dizer da maneira forçadíssima que Across the Universe, tenta encaixar as músicas mais psicodélicas dos Beatles na história? Sobra até para Bono, numa das participações especiais mais bisonhas que eu já vi num filme, cantando I Am the Walrus. Claro que para compensar isso, o musical que utiliza apenas músicas do quarteto de Liverpool (um trabalho ingrato para qualquer um, diga-se de passagem) tem momentos bem inspirados, como as sequências de Let it Be, Strawberry Fields Forever e I Want You. Mas no geral, ele acaba entretendo mais por tentarmos adivinhar como os clássicos dos Beatles vão entrar na história do que por méritos do filme em si.

Isso porque nem falei de Rock of Ages, que trouxe Tom Cruise interpretando uma mistura de Axl Rose, Sebastian Bach e Bret Michaels cantando Wanted Dead or Alive do Bon Jovi e tentando salvar um elenco protagonizado por dois jovens com o carisma de uma porta. Por pior que o filme seja (e ele é bem ruim), também diverte pelo mesmo motivo de todos os outros, que é ver músicas conhecidas (neste caso, o rock mais farofa dos anos 80) sendo interpretado das maneiras mais inusitadas.

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Provavelmente o único jukebox musical dos anos 2000 que realmente conseguiu o pacote completo (sendo bom tanto do ponto de vista musical quanto cinematográfico) foi Moulin Rouge, o espalhafatoso longa de Baz Lhurmann, que em meio a versões maravilhosamente esquisitas de clássicos de Madonna, The Police, Queen, Elton John e David Bowie (além de um belíssimo mash-up de U2, Dolly Parton, Kiss, Joe Cocker, Beatles, entre outros), têm uma das melhores atuações da carreira de Nicole Kidman, um visual espetacular e uma direção cheia de paixão de Lhurmann. Foi indicado a oito Oscar (incluindo o principal), mas só levou dois (Direção de Arte e Figurino).

Porém, esse tipo de musical passa longe de ser algo do século XXI. O primeiro jukebox musical data dos anos 40 (Yankee Doodle Dandy, filme que conta a história do compositor George M. Cohan). Essas produções mais antigas podem não ser focadas em canções pop/rock, mas possuem um valor inestimável. Uma das provas disso é que o único musical dirigido por Martin Scorsese, de 1977, é um tributo aos musicais antigos.

Bem diferente do estilo pelo qual o diretor ficou conhecido, New York, New York resgata toda a elegância da Hollywood Clássica (contrastando com a mudança que ele mesmo, juntamente com Spielberg, Coppola e George Lucas promoviam na época) e traz vários standards (canções populares) dos anos 20 e 30 interpretados por Liza Minelli. Não deixa de ser irônico que a única música original do filme também tenha se tornado um standard, mais popular na voz de Frank Sinatra. Caso ainda não tenha ligado o nome do filme à música, é essa aqui (e aqui, a versão original do filme).

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Existem diversos outros jukebox musicals dignos de comentários aqui (como todos os filmes dos Beatles feitos para promover álbuns), mas deixo eles para uma outra oportunidade e finalizo a coluna comentando sobre o que é talvez o maior representante deste subgênero… Ironicamente, é o filme que pouca gente sabe que é um musical desse tipo. No caso, é o icônico Cantando na Chuva, o clássico de 1952 protagonizado por Gene Kelly.

Todo o roteiro do filme foi escrito com base em músicas de produções da MGM da década de 30 compostas por Nacio Herb Brown e Arthur Freed, que teve a ideia para a produção. A própria Singin’ in the Rain (cuja sequência no filme é uma daquelas que resumem o que me faz amar tanto Cinema) é de originalmente do musical The Hollywood Revue of 1929 (e a cena, totalmente diferente do que se espera de um filme hoje em dia, é uma daquelas pérolas que ajudam a montar a evolução do cinema). Cantando na Chuva tem apenas duas canções originais: Moses Suposes e Make ‘Em Laugh.

Como eu disse, no passado os jukebox musicals iam muito além de tentar jogar o máximo de músicas possíveis no filme só para fazer o público apontar para a tela dizendo “nossa, eu adoro essa!” e eram mais focados em reverenciar as canções utilizadas do que simplesmente aproveitá-las como contexto para o roteiro. Independente disso, não deixa de ser uma forma criativa de manter os musicais vivos. Além do que, por mais que faltem as características de um bom filme na maioria dessas produções atualmente, nós adoramos quando reconhecemos aquela música, não é mesmo?

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