Aproveitando o ensejo do dia dos namorados resolvi escrever sobre o filme que, pra mim, é o melhor dos filmes (que conheço) para assistir nessa época. Sem me prolongar na sinopse, Antes do Amanhecer (27 de janeiro de 1995) tem duração de um pouco mais de uma hora e conta a história de Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) que se esbarram em um trem de Budapeste para Viena e decidem se conhecer. Parece improvável que um filme tão curto sobre um relacionamento de poucas horas possa nos ensinar algo ou pelo menos nos fazer refletir sobre, sobretudo, nossa vida (relacionamentos, pessoas, até mesmo sobre religião, reflexões filosóficas, morte e, é claro, o amor). Mas é exatamente isso que Antes do Amanhecer faz.

A direção é feita pelo ainda inexperiente Richard Linklater (muito antes de ficar aclamado por Boyhood). Já o roteiro é assinado por Kim Krizan e o próprio Linklater. Esse é um ponto interessante a se comentar porque em entrevista para imprensa, o diretor admitiu que a história foi baseada em fatos reais e que o próprio viveu! Provavelmente por isso o filme tem um caráter tão pessoal. É difícil não imaginar-se na mesma situação dos protagonistas: esbarrar por ai em sua respectiva alma gêmea e viver feliz para sempre sabe-se lá até quando com ela. É, eu sei que não é um tema dos mais originais, porém, a forma como é abordado é das mais originais e competentes. Indo na contramão dos blockbusters de “amorzinho”/comédias românticas, aqui, ao se ter um até então desconhecido Linklater, com o, até então, pouco conhecido Ethan Hawke (e não um Ryan Reynolds ou Ashton Kutcher da vida) a trama tinha que se vender de alguma forma. E isso acontece da maneira mais agradável possível: conteúdo. E esse conteúdo cai inteiramente nas costas das conversas entre os personagens. Claro, a história é contada em somente um dia na vida de Jesse e Céline, disso, basicamente só o que acontece é muita conversa. Mas quem iria gostar de um filme sobre um encontro em que só se falam abobrinhas? De encontros assim já bastam os nossos! Aqui não. A juventude dos atores/personagens transborda pelos seus diálogos. E que diálogos! O impulso, o romantismo, os sonhos, os planos, o querer ser o mais legal possível para tentar impressionar, estão todos presentes. Pensando bem, tudo isso ocorre da forma mais natural porque é simplesmente isso que fazemos. E as intrigas e os desentendimentos que sempre acontecem depois desse cortejo inicial? Ah, isso é pauta para as outras duas continuações (Antes do pôr-do-sol e Antes da meia-noite). Talvez por isso esse seja o meu preferido da trilogia: a imaturidade me permite querer simplesmente só a parte boa.

O longa se passa na cidade de Viena que, longe de ser das mais badaladas ou até mesmo conhecidas cidades do velho continente, aparece como terceira protagonista. Uma face nova e romantizada da cidade é exposta com seus belos monumentos, além de parques, cemitério, rio Danúbio e uma peculiar vida noturna. Mas a melhor forma da cidade se tornar presente se faz quando somos introduzidos à seus atores amadores, ciganos quiromantes, poetas errantes, entre outros – todos com seus próprios pesos e ensinamentos que contribuem para questões que encorpam mais ainda o conteúdo da obra.

A trilha sonora do Fred Frith é marcante (em especial na cena da cabine da loja de música com a bela Come Here da Kath Bloom!) e pertence ao ambiente do filme – quero dizer, na maioria das vezes que escutamos suas músicas, os personagens estão ouvindo também e inclusive interagindo com elas. Isso contribui para a ideia de que nós, que assistimos o filme, somos privilegiados expectadores. Talvez até como se estivéssemos “segurando vela” para os dois apaixonados.

Com 105 minutos de duração e o orçamento pífio de 2,5 milhões de dólares, os responsáveis por Antes do Amanhecer se entregaram de corpo e alma para fazerem desse filme o mais real e sincero possível. Não chegou a ser um sucesso de bilheterias (receita de  apenas cerca de 5,5 milhões de dólares), mas a crítica especializada deu todos os devidos méritos, sendo sempre colocado na lista dos melhores filmes de romance de todos os tempos, além de ter rendido um importante Urso de Berlim de melhor diretor para o incipiente Richard Linklater. E desse jeito, sem efeitos especiais, sem locações mirabolantes, sem nomes de peso (ao menos na época da gravação), um filme pode ser brilhante e marcar a vida de pessoas.

OBS.: Por infortúnio destino, a musa inspiradora, Amy Lehrhaupt morreu num acidente de carro nas vésperas da estreia do primeiro filme em 1995, porém só em 2010 descobriu-se que ela tinha sido a inspiração de Linklater. Ao se conhecerem, em meados de 1989, o então aspirante à cineasta chegou a comentar que um dia faria um filme sobre o encontro dos dois, Amy provavelmente não deve ter levado à sério. Visto que não mantiveram contato desde o primeiro e único encontro, ela foi devidamente homenageada no final do terceiro e último filme da trilogia.

Nota: 10