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Olá, leitores. A coluna Outro Foco de hoje traz como tema produções em que as mulheres são o ponto de atenção. Os recentes casos de mulheres sendo atacas (de forma verbal e/ou física) ou a subjugação das mesmas foi o que me motivou nesta lista. Além disso, sabe-se que, quando se trata de cinema, não é costume ver mulheres como protagonistas ou, quando estão presentes, são em função dos homens. Contudo, preciso lembrar que esta não é necessariamente uma lista para defender ou atacar o feminismo. Confira a seguir.

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Ágora [2009] é um drama histórico do diretor Alejandro Amenábar (Os Outros) e apresenta a vida e morte de Hypatia (Rachel Weisz), filósofa, astróloga e matemática em Alexandria, no Egito em 391 D.C. Ela é professora de Synesius (Rupert Evans), adepto do cristianismo e de Orestes (Oscar Isaac), que a ama sem ser correspondido, assim como Davus (Max Minghella), escravo pessoal dela. O período contempla a ascensão do cristianismo sobre a cultura greco-romana e, à época, Hypatia pesquisa e ensina sobre os movimentos de rotação da Terra e questiona sobre o planeta ser ou não o centro do universo.

A história segue com a filósofa no centro do conflito entre cristãos e gregos na busca da dominação do espaço e instituição de uma única crença. Durante a invasão dos cristãos, ela busca defender o conhecimento presente na biblioteca de Alexandria. Avançando no tempo de filme, Orestes é prefeito da cidade e Synesius um dos conselheiros cristãos.

Única mulher (a receber foco) em toda produção, Hypatia chama atenção por ser independente, por recusar o amor de Orestes e por não aceitar ser subjugada pelos homens do local. Além disso, pede espaço, fala sem ser solicitada e recusa-se a se curvar ao cristianismo, levando a um desfecho trágico para si. Seu maior bem é a liberdade e disso ela não abre mão.

Ágora é um dos meus filmes preferidos e merece atenção por diversos motivos: traz muito de história (ainda que seja necessária pesquisa mais aprofundada sobre os temas), mostra Hypatia como uma excelente astróloga e apresenta sua metodologia para chegar ao resultado de sua pesquisa. Os personagens têm profundidade. A protagonista, por exemplo, é uma grande humanista, mas consegue mostrar força dentro do que todos consideram fraqueza. A ambientação é muito boa, os diálogos são bem construídos e, no meio de tudo isso, as 2h de filme passam que você nem percebe.

A doll’s house [1992] (Casa de bonecas – em português) é uma adaptação da BBC para a peça homônima de Henrik Ibsen dirigida por David Thacker (O prefeito de Casterbridge) e conta a história de Nora Helmer (Juliet Stevenson), dona de casa dedicada ao marido Torvald Helmer (Trevor Eve) que se vê numa encruzilhada ao ser ameaçada de ter seu maior segredo e motivo de orgulho revelado.

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Após oito anos de casamento o casal Helmer pode, enfim, gastar um pouco mais devido a recém adquirida promoção de Torvald. Eles são surpreendidos pela visita de Kristine Linde (Geraldine James), amiga de longa data de Nora, que aproveita a ocasião para pedir um emprego e reestruturar-se após o falecimento de seu marido. As duas são interrompidas pela visita do advogado Nils Krogstad (David Calder) para falar em particular com a senhora Helmer e iniciar o pesadelo da inocente dona de casa.

Este filme (uma bela adaptação do texto teatral) é uma excelente demonstração de evolução do personagem. Nora, no início, é uma mulher aparentemente boba, tratada pelo marido como um bibelô, uma bonequinha que ele pode manipular e tratar conforme queira. Ao longo da trama, a protagonista vai mostrando que não é tão ingênua como mostrado anteriormente. Ela revela que fora ela quem salvou a vida do marido e que tem artimanhas e cartas na manga para evitar que seu segredo seja revelado. Ela recebe a ajuda de sua amiga Linde e de Dr. Rank (Patrick Melahide), melhor amigo de seu marido, para evitar ser descoberta.

Considerado um texto extremamente feminista, sobretudo para a época em que fora escrito (1879), Nora carrega a história nas costas. Ela se transforma em uma mulher fora dos padrões, questiona coisas impostas a ela por ser mulher e toma decisões que, ainda hoje (2016), algumas mulheres são crucificadas… ah, a cena final é um samba completo na cara da sociedade. Só posso dizer que terminei o filme (e o livro) amando dona Nora. [Qualquer outra coisa que eu venha a falar aqui será spoiler. =X]

O aborto dos outros [2008] é um documentário de Carla Gallo (Dossiê Rê Bordosa) e, assim como o título apresenta, conta casos de aborto ocorridos no Brasil, com um diferencial: o objetivo não é tornar a mulher vilã pelo aborto, e sim, humanizar e dar apoio àquelas que realizam este procedimento extremamente prejudicial ao corpo.

São diversas histórias, como a da menina de 13 anos que foi estuprada no caminho da escola e ameaçada por seu agressor [aqui tem o adendo do sofrimento da mãe que não sabe o que fazer ao ver a filha sofrendo]; o caso da mulher que ao longo de um ano foi estuprada pelo marido como moeda para conseguir o divórcio; a senhora que, ao longo da vida, cometeu quatro abortos e agora se arrepende por estar sozinha e sem seus filhos e algumas outras.

O documentário apresenta olhar o humanizado sobre essas mulheres, o tratamento oferecido pela equipe médica, as dificuldades enfrentadas e o desconhecimento dos próprios direitos. É uma boa indicação para todos que quiserem conhecer um pouco mais do sofrimento que é um aborto [principalmente quando permeado do estupro]. Em “O aborto dos outros” o objetivo é tocar o espectador. O olhar oferecido por Carla Gallo é genial, triste e, de certa forma, traumatizante. Serve como excelente material para quem quer entender um pouco mais sobre aborto e concepção de estupro.

Há um trecho em que um obstetra entrevistado (Dr. Aníbal) dá uma declaração sobre o tema: “de modo geral, o aborto é um total fracasso: da mulher, que não conseguiu se prevenir e que engravidou antes da hora. Do Estado, que não ofereceu condições educacionais para que a mulher se prevenisse e da mulher, que optou por não levar a gestação adiante”. Infelizmente, só o vi culpabilizar a vítima [o que me leva a acreditar que muito ainda precisa ser ensinado sobre cultura do estupro] e não concordo com a opinião dele. Mas aí é a minha opinião. Qual a sua?

Em todo caso, a produção é uma excelente indicação e não poderia ficar de fora dessa lista.

E você, o que achou da lista? Gostou das indicações? Tem alguma para fazer? O que acha de uma segunda lista com este tema? Deixe aí nos comentários.

Te vejo em breve.
Lisbôa. =D

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